Ela tinha um sorriso. Não como o teu. O dela mais ficcionado, menos certo, não erraria se dissesse menos encantador. Porque com ela eu não tinha de ter medo de dizer,
-gosto de ti,
Como tenho contigo, quando fico preso ao ridículo de não saber sequer ser eu.
No papel os verbos pareceram-me fáceis, suaves, ternos, aqui menos maduros, incoerentes, apressados.
Perdemo-nos por momentos em conversas banais. Dizes qualquer coisa sobre a vida. Depois ficas em silêncio, como se todas as memórias fossem de repente um carrossel que a razão quer mas não consegue parar.
Com ela seria fácil. Bastaria mudá-la de cenário, disfarçá-la por meio de uma dúzia de frases bonitas que nos fazem esquecer quase tudo. Contigo não. A vida diferente dos livros. Sem analepses nem prolepses. Sempre no mesmo lugar, mesmo que te doa, mesmo que não saibas para onde fugir, mesmo que te sobrem sentimentos e te faltem palavras. Na vida uma coisa de cada vez.
Como naquele dia em que não soubeste como lidar com o vazio.
Uma coisa de cada vez.
O vazio é hoje o mesmo. Deixámos de nos questionar sobre isso. Julgamos conhecer-nos melhor, e quanto mais nos conhecemos menos partilhamos.
Por isso te escrevo. Para partilhar.
Ela tinha um sorriso. Não como o teu, mas feito a partir do teu. E a verdade é que quando te vejo, vejo-a também a ela, porque são a mesma, porque estão exactamente no mesmo lugar. És no fundo a realidade da minha ficção e todos os dias agradeço a Deus por isso.
sábado, setembro 03, 2011
sábado, julho 23, 2011
Eco
Eu queria ler-te Lobo Antunes antes de dizer-te qualquer outra coisa. Queria entrar e ler. Alheio a tudo e a todos. Mesmo que me chamassem louco, mesmo que me pusessem porta fora. Eu queria que se fizesse silêncio e que as pessoas que te olhavam com ar de pena por momentos se suspendessem no pensamento ridículo de ver-me por ali.
Eu queria que as pessoas me olhassem perplexas enquanto sem usar quaisquer palavras diriam,
- o joão,
E o nome soar-te-ia estranho, como se fingisses nunca ter-me conhecido. Mas eu não me importaria. Nunca me fez confusão a ausência com que nos entregamos ao mundo.
Tu ficarias séria. E essa seriedade far-me-ia acreditar que nada mudou. Não que eu tenha vindo por mais alguma razão. Como te disse, queria apenas ler-te Lobo Antunes. Sim, quem sabe devolver-te um pouco à realidade, desanestesiar-te desse aglomerado de gente que te rodeia com o pensamento cego que, mais dia, menos dia, vais morrer.
Ignorando que morremos todos um bocadinho.
Não te faria perguntas. De que nos servem as perguntas senão para nos inquietar o pensamento?
Depois de ler, ficaria em silêncio. E mesmo que não tivesses ouvido nada respiraríamos os dois a doçura cruel de cada palavra. Cada parágrafo derramado sobre a tua pele, um tratamento urgente para o amor (ou quem sabe para a falta dele).
Confesso que talvez sentisse a tua mão carinhosamente pousada sobre o meu cabelo. A saudade do tempo em que tudo era perfeito – se é que os amantes não baniram já a perfeição do dicionário do amor.
Não tenhas medo. Se eu viesse não falaria sobre o passado. Ignoraríamos que existe futuro. Fechados na esfera da nossa solidão olharíamos apenas o presente, como se o hoje fosse um retrato adulterado do que foi o ontem, ou do que virá a ser o amanhã.
Não te preocupes. Não precisarias de fingir. Seríamos afinal os mesmos.
Trago a folha na mão. Os dedos tremem-me. O texto não. Continua firme, ávido para que os meus olhos se fixem nele, sem me distrair, sem me arrepender, sem dar um passo atrás. Pergunto-te,
Posso entrar?
E a minha voz faz eco na sala.
Isa Mestre
Eu queria que as pessoas me olhassem perplexas enquanto sem usar quaisquer palavras diriam,
- o joão,
E o nome soar-te-ia estranho, como se fingisses nunca ter-me conhecido. Mas eu não me importaria. Nunca me fez confusão a ausência com que nos entregamos ao mundo.
Tu ficarias séria. E essa seriedade far-me-ia acreditar que nada mudou. Não que eu tenha vindo por mais alguma razão. Como te disse, queria apenas ler-te Lobo Antunes. Sim, quem sabe devolver-te um pouco à realidade, desanestesiar-te desse aglomerado de gente que te rodeia com o pensamento cego que, mais dia, menos dia, vais morrer.
Ignorando que morremos todos um bocadinho.
Não te faria perguntas. De que nos servem as perguntas senão para nos inquietar o pensamento?
Depois de ler, ficaria em silêncio. E mesmo que não tivesses ouvido nada respiraríamos os dois a doçura cruel de cada palavra. Cada parágrafo derramado sobre a tua pele, um tratamento urgente para o amor (ou quem sabe para a falta dele).
Confesso que talvez sentisse a tua mão carinhosamente pousada sobre o meu cabelo. A saudade do tempo em que tudo era perfeito – se é que os amantes não baniram já a perfeição do dicionário do amor.
Não tenhas medo. Se eu viesse não falaria sobre o passado. Ignoraríamos que existe futuro. Fechados na esfera da nossa solidão olharíamos apenas o presente, como se o hoje fosse um retrato adulterado do que foi o ontem, ou do que virá a ser o amanhã.
Não te preocupes. Não precisarias de fingir. Seríamos afinal os mesmos.
Trago a folha na mão. Os dedos tremem-me. O texto não. Continua firme, ávido para que os meus olhos se fixem nele, sem me distrair, sem me arrepender, sem dar um passo atrás. Pergunto-te,
Posso entrar?
E a minha voz faz eco na sala.
Isa Mestre
terça-feira, julho 05, 2011
Apresentação de "Amar em Círculo", de Isa Mestre

A apresentação do meu romance, Amar em Círculo, será dia 8 de Julho (próxima sexta-feira) na Biblioteca Municipal de Faro, pelas 18h00. A apresentação estará a cargo do Elos Clube de Faro e o livro será apresentado por Dina Ferreira. Recordo-vos que para além da edição em papel o livro vem acompanhado de um audiobook lido por Afonso Dias. Conto com todos vocês em mais um dia importante como este!
segunda-feira, janeiro 24, 2011
[cinco e vinte]
Normalmente não desisto das pessoas. Acredito em segundas chances. Sei que não se pode fazer tudo bem à primeira. Sei que nem tudo se deixa fazer bem à primeira.
Confesso que ainda cheguei a acreditar em ti, que não quis desistir logo. Depois veio o medo e com ele a raiva. O facto de não puderes olhar para ti fez com que tivesse medo que também eu, um dia, não conseguisse olhar para mim.
Tu ainda não sabes mas tens medo. E continuas com medo de ter medo mesmo quando já o tens.
Olhas-me. Procuras sempre as palavras que doem mais.
Não te contentas em ficar por ali naquela demonstração oca de insensibilidade.
Eu vim. Os outros ficaram. Já não acreditam em ti. Há muito que disseram adeus às segundas chances. Mas eu vim. E é precisamente por isso que me odeias. Porque não me deixo comer pelo medo, porque as palavras que te assustam não me fazem frente.
Para dizer a verdade gostava de puder gostar de ti. Gostar de ti com a mesma sinceridade com que gosto daqueles que não viram as costas à luta, dos que não são cobardes.
Dizes-me qualquer coisa sobre a pressão e eu penso como será dizer-te que quando me falas é como se te visses.
Nua. No meu olhar, na minha crítica, na mais simples observação.
Eu sei que tens frio. Porque as minhas palavras te despem e a ausência de outras te tornam cada vez mais só.
Não tenho pena de ti.
Repito. Não tenho pena de ti. Tenho vergonha de já não puder ou já não conseguir acreditar naquilo que és.
Confesso que ainda cheguei a acreditar em ti, que não quis desistir logo. Depois veio o medo e com ele a raiva. O facto de não puderes olhar para ti fez com que tivesse medo que também eu, um dia, não conseguisse olhar para mim.
Tu ainda não sabes mas tens medo. E continuas com medo de ter medo mesmo quando já o tens.
Olhas-me. Procuras sempre as palavras que doem mais.
Não te contentas em ficar por ali naquela demonstração oca de insensibilidade.
Eu vim. Os outros ficaram. Já não acreditam em ti. Há muito que disseram adeus às segundas chances. Mas eu vim. E é precisamente por isso que me odeias. Porque não me deixo comer pelo medo, porque as palavras que te assustam não me fazem frente.
Para dizer a verdade gostava de puder gostar de ti. Gostar de ti com a mesma sinceridade com que gosto daqueles que não viram as costas à luta, dos que não são cobardes.
Dizes-me qualquer coisa sobre a pressão e eu penso como será dizer-te que quando me falas é como se te visses.
Nua. No meu olhar, na minha crítica, na mais simples observação.
Eu sei que tens frio. Porque as minhas palavras te despem e a ausência de outras te tornam cada vez mais só.
Não tenho pena de ti.
Repito. Não tenho pena de ti. Tenho vergonha de já não puder ou já não conseguir acreditar naquilo que és.
quinta-feira, junho 10, 2010
Saber que voltas
Nada me entretém. Quis distrair-me de ti e acabei por distrair-me de mim.
Telefonaste e não atendi. Partira. Para qualquer um outro lugar. Não perguntaste se voltava. Não interessa.
E eu estava mesmo ali. Mas apesar de tudo partira. O meu lado B, a minha cassete estragada, aquilo a que odiosamente chamavas o meu outro eu.
Ser capaz de partir é maior e mais forte do que ter vontade de voltar. Mas tu não entendes. Ainda não podes entender.
Quero-te bem. E por isso não te ralho. Seria incapaz de ralhar-te.
Não sei ainda se posso duvidar da certeza, se posso adormecer sóbrio e confiante nos lençóis da tua ausência. Não sei.
Ligo a televisão. Quero distrair-me com qualquer porcaria que me atirem para os olhos. Por momentos peço ao ecrã que me cegue, que me cegue para não mais poder ver o vazio, que me cegue para não mais saber dessa cama vazia, dessa poltrona desocupada, desse candeeiro desligado. Cega-me. Cega-me de uma vez para que a luz da tua ausência não volte a ferir-me os olhos.
E se puderes telefona. Quero perguntar-te se voltas.
Isa Mestre
Telefonaste e não atendi. Partira. Para qualquer um outro lugar. Não perguntaste se voltava. Não interessa.
E eu estava mesmo ali. Mas apesar de tudo partira. O meu lado B, a minha cassete estragada, aquilo a que odiosamente chamavas o meu outro eu.
Ser capaz de partir é maior e mais forte do que ter vontade de voltar. Mas tu não entendes. Ainda não podes entender.
Quero-te bem. E por isso não te ralho. Seria incapaz de ralhar-te.
Não sei ainda se posso duvidar da certeza, se posso adormecer sóbrio e confiante nos lençóis da tua ausência. Não sei.
Ligo a televisão. Quero distrair-me com qualquer porcaria que me atirem para os olhos. Por momentos peço ao ecrã que me cegue, que me cegue para não mais poder ver o vazio, que me cegue para não mais saber dessa cama vazia, dessa poltrona desocupada, desse candeeiro desligado. Cega-me. Cega-me de uma vez para que a luz da tua ausência não volte a ferir-me os olhos.
E se puderes telefona. Quero perguntar-te se voltas.
Isa Mestre
Angústia
Tudo me lembra de ti. É nesse momento que tenho a absoluta certeza que querer esquecer é a maior garantia de recordar. Recordar para sempre. E eu que queria adormecer por uns tempos, de repente, aqui, perdida, inerte, novamente imbuída em pensamentos. Tão inútil como todos nós.
E as minhas mãos, meu amor, são apenas as minhas mãos. Não servem para salvar vidas nem para acolher esperanças. As minhas mãos, meu amor, às vezes são apenas dois becos rumo ao medo, de encontro à solidão.
Mas tu nunca me perguntas se tenho medo.
E eu tenho. Tenho tantas vezes.
Olhas-me apenas. Queres dizer-me que posso chorar, que não devo envergonhar-me. Mas não dizes. Não dizes nada.
Sentas-te e colocas as mãos sobre a face. Choras.
Pergunto-te se podemos chorar os dois.
Acenas afirmativamente e em segundos lá estamos os dois abraçados no nada.
Isa Mestre
E as minhas mãos, meu amor, são apenas as minhas mãos. Não servem para salvar vidas nem para acolher esperanças. As minhas mãos, meu amor, às vezes são apenas dois becos rumo ao medo, de encontro à solidão.
Mas tu nunca me perguntas se tenho medo.
E eu tenho. Tenho tantas vezes.
Olhas-me apenas. Queres dizer-me que posso chorar, que não devo envergonhar-me. Mas não dizes. Não dizes nada.
Sentas-te e colocas as mãos sobre a face. Choras.
Pergunto-te se podemos chorar os dois.
Acenas afirmativamente e em segundos lá estamos os dois abraçados no nada.
Isa Mestre
terça-feira, junho 08, 2010
ouve-me
[ao único que pode realmente ouvir-me]
Sei que estás aí. Não me deixes fugir. Quero acreditar que te posso ainda segurar a mão. Quero acreditar que o medo que agora sinto dentro do peito seja extinto por qualquer um abraço apertado no calor da noite, por um beijo quente enquanto durmo, por uma palavra sussurrada ao ouvido. Sei que estás aí. Não me deixes acreditar que estou sozinha.
Estou assustada. Cuida de mim. Fá-lo para que possa cuidar daqueles que mais amo.
Falo-te. Mas a tua voz quase sempre inaudível traz o medo de que a distância seja demasiado grande, de que a vida seja apenas um cruzamento de sentimentos e eu não saiba realmente estar em nenhum lugar.
Sei que estás aí. Mas perdoa-me, é maior o medo. É maior o amor, que afinal é a única coisa que nos faz ter medo.
Ouve-me. Não me deixes fugir. Não me deixes acreditar-me sozinha. Quero estar contigo.
Ou melhor, preciso que estejas comigo.
Perdoa-me o egoísmo das minhas palavras, mas preciso de ti.
Preciso que olhes por ele, que olhes por nós.
Sei que estás aí. Não me deixes fugir. Quero acreditar que te posso ainda segurar a mão. Quero acreditar que o medo que agora sinto dentro do peito seja extinto por qualquer um abraço apertado no calor da noite, por um beijo quente enquanto durmo, por uma palavra sussurrada ao ouvido. Sei que estás aí. Não me deixes acreditar que estou sozinha.
Estou assustada. Cuida de mim. Fá-lo para que possa cuidar daqueles que mais amo.
Falo-te. Mas a tua voz quase sempre inaudível traz o medo de que a distância seja demasiado grande, de que a vida seja apenas um cruzamento de sentimentos e eu não saiba realmente estar em nenhum lugar.
Sei que estás aí. Mas perdoa-me, é maior o medo. É maior o amor, que afinal é a única coisa que nos faz ter medo.
Ouve-me. Não me deixes fugir. Não me deixes acreditar-me sozinha. Quero estar contigo.
Ou melhor, preciso que estejas comigo.
Perdoa-me o egoísmo das minhas palavras, mas preciso de ti.
Preciso que olhes por ele, que olhes por nós.
domingo, junho 06, 2010
Minuto Final
Às vezes quando te olho estou apenas perdida. Perdida de mim, perdida de tudo aquilo em que acreditei durante anos, perdida do dia em que jurei amar-te, perdida do momento em que o teu corpo se encostou ao meu. Perdida de ti, também.
Às vezes quando te olho não caminhamos pela mesma estrada, vamos lado a lado, mas cada um cuida de si, sem olhar para trás, sem nunca dizer adeus.
Sabemos quando será o fim, mas não nos despedimos. Continuo refém dos teus passos, da tua voz, do teu sorriso, refém de todas essas coisas que podem aprisionar-nos mesmo sem usar algemas.
E sigo em frente. Como me ensinaste.
Os corpos acumulam-se, os corpos cansam-se, os corpos deitam-se e levantam-se, os corpos sabem a medo e solidão. E nós não sabemos a nada. Perseguimo-nos um ao outro, numa dança de amor e incerteza.
Tu dizes,
- Amanhã chegará o dia.
E eu acredito que em algum momento ele possa chegar.
Não te pergunto para onde vamos. Vamos sempre para lá do que planeámos. E eu que quis amar-te sempre até ao fim vou cada dia mais longe, mais longe, mais longe.
Não sei ainda se podemos querer ser mais, se podemos sonhar ser mais, sei apenas que o amor nos torna maiores. Que o amor nos torna cada vez maiores. Entendo isso no momento em que a tua mão pálida e trémula abandona a vida. A vida que é sempre nossa e mesmo quando morremos nunca deixa de nos pertencer.
Às vezes quando te olho não caminhamos pela mesma estrada, vamos lado a lado, mas cada um cuida de si, sem olhar para trás, sem nunca dizer adeus.
Sabemos quando será o fim, mas não nos despedimos. Continuo refém dos teus passos, da tua voz, do teu sorriso, refém de todas essas coisas que podem aprisionar-nos mesmo sem usar algemas.
E sigo em frente. Como me ensinaste.
Os corpos acumulam-se, os corpos cansam-se, os corpos deitam-se e levantam-se, os corpos sabem a medo e solidão. E nós não sabemos a nada. Perseguimo-nos um ao outro, numa dança de amor e incerteza.
Tu dizes,
- Amanhã chegará o dia.
E eu acredito que em algum momento ele possa chegar.
Não te pergunto para onde vamos. Vamos sempre para lá do que planeámos. E eu que quis amar-te sempre até ao fim vou cada dia mais longe, mais longe, mais longe.
Não sei ainda se podemos querer ser mais, se podemos sonhar ser mais, sei apenas que o amor nos torna maiores. Que o amor nos torna cada vez maiores. Entendo isso no momento em que a tua mão pálida e trémula abandona a vida. A vida que é sempre nossa e mesmo quando morremos nunca deixa de nos pertencer.
domingo, abril 25, 2010
Apresentação de Voz Perdida 3
Apresentação de Voz Perdida 2
Apresentação de Voz Perdida
terça-feira, março 30, 2010
Voz Perdida na Revista Sábado
O livro Voz Perdida, de Isa Mestre, foi noticiado na Revista Sábado com uma pré-publicação do primeiro capítulo.
Veja em : http://www.sabado.pt/Multimedia/FOTOS/-span--b-Artes-b---span-/Pre-publicacao--Voz-Perdida.aspx
Veja em : http://www.sabado.pt/Multimedia/FOTOS/-span--b-Artes-b---span-/Pre-publicacao--Voz-Perdida.aspx
quinta-feira, março 25, 2010
Apresentação de Voz Perdida, de Isa Mestre
A apresentação oficial de Voz Perdida, de Isa Mestre, será no próximo dia 10 de Abril, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Faro. A tarde contará com a apresentação da obra e a leitura de alguns excertos. Será uma tarde de palavras, muitas palavras. Fica o convite a todos para que apareçam e façam parte deste momento.
segunda-feira, março 22, 2010
Sem medo
A poesia são os teus olhos quando me olhas e não sei como escrever-te.
A poesia está longe de ser tudo aquilo que um dia quiseste que fosse. A poesia não sou eu nem as minhas palavras. A poesia é simplesmente a poesia.
Cada momento. Sim, talvez a poesia seja cada momento.
Como este em que os meus dedos voltam a tocar novamente o papel. Três meses depois. Não há rasto de saudade. Apenas uma dor. Uma ligeira frustração. O medo. Sim, também o medo.
Desculpa se já não sei como agradar-te. Desculpa se a brevidade do papel me retirou sinceridade nos gestos.
Queria abraçar-te. Não sei como fazê-lo. Agarrar-te? Dizer-te que te adoro? Poderia fazê-lo ignorando que vivemos todos na poeira do ridículo, na distância ínfima que vai do meu coração ao teu.
Queria pedir-te que viesses. Que viesses sem porquês, sem respostas pensadas, sem sorrisos ensaiados. Apenas tu.
Nua. Despida de palavras sem sentido. Como as árvores no Outono.
Como gosto de ver-te.
Pediste-me que esquecesse as palavras cruéis, que agora , que estou a morrer, me lembrasse apenas das coisas boas.
Pudesse eu dizer-te como nos tornamos tristes na hora da partida, como perdemos capacidade de recordar, como nos tornamos máquinas autodiegéticas com um só rumo, uma só canção.
Cantas para mim? Cantas quando as luzes se apagarem e o medo me habitar o peito?
Cantas quando as enfermeiras cansadas do meu corpo chamarem a morte para me vir buscar?
Cantas. Eu sei que cantas. Cantas baixinho no meu ouvido. E nesses momentos, a tua voz é a minha poesia. Todos os versos que nunca escrevi. Todos os momentos que nunca vivi. Todas as tristezas que sendo minhas nunca deixaram de te pertencer.
Todos os medos e todas as mágoas.
Mas eu vou, se cantares para mim eu vou sozinho. E sabes que mais? Até vou sem medo.
A poesia está longe de ser tudo aquilo que um dia quiseste que fosse. A poesia não sou eu nem as minhas palavras. A poesia é simplesmente a poesia.
Cada momento. Sim, talvez a poesia seja cada momento.
Como este em que os meus dedos voltam a tocar novamente o papel. Três meses depois. Não há rasto de saudade. Apenas uma dor. Uma ligeira frustração. O medo. Sim, também o medo.
Desculpa se já não sei como agradar-te. Desculpa se a brevidade do papel me retirou sinceridade nos gestos.
Queria abraçar-te. Não sei como fazê-lo. Agarrar-te? Dizer-te que te adoro? Poderia fazê-lo ignorando que vivemos todos na poeira do ridículo, na distância ínfima que vai do meu coração ao teu.
Queria pedir-te que viesses. Que viesses sem porquês, sem respostas pensadas, sem sorrisos ensaiados. Apenas tu.
Nua. Despida de palavras sem sentido. Como as árvores no Outono.
Como gosto de ver-te.
Pediste-me que esquecesse as palavras cruéis, que agora , que estou a morrer, me lembrasse apenas das coisas boas.
Pudesse eu dizer-te como nos tornamos tristes na hora da partida, como perdemos capacidade de recordar, como nos tornamos máquinas autodiegéticas com um só rumo, uma só canção.
Cantas para mim? Cantas quando as luzes se apagarem e o medo me habitar o peito?
Cantas quando as enfermeiras cansadas do meu corpo chamarem a morte para me vir buscar?
Cantas. Eu sei que cantas. Cantas baixinho no meu ouvido. E nesses momentos, a tua voz é a minha poesia. Todos os versos que nunca escrevi. Todos os momentos que nunca vivi. Todas as tristezas que sendo minhas nunca deixaram de te pertencer.
Todos os medos e todas as mágoas.
Mas eu vou, se cantares para mim eu vou sozinho. E sabes que mais? Até vou sem medo.
quinta-feira, março 04, 2010
Entrevista à Antena 1 , dia 15 de Março
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Lançamento do livro Voz Perdida, de Isa Mestre
Acabo de lançar, com a chancela do Sítio do Livro, a obra Voz Perdida. Voz Perdida trata-se de um conjunto de micro-narrativas romanceadas, em prosa, ao estilo do que tenho produzido até aqui nas minhas participações no blogue e no grupo literário Texto-Al.
O livro encontra-se disponível para venda através do site : http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/voz-perdida/9789899663206 ou contactando-me pelo email ou telefone.
quarta-feira, novembro 25, 2009
Trinta do Seis
Tenho saudades tuas.
As frases de três palavras são quase sempre as mais difíceis de dizer. Como se ficassem presas na garganta, como se o coração, de repente, fosse apenas uma rua. Não uma estrada, como tantas vezes pensáramos. Uma rua. Sim. Uma rua.
Uma rua onde nem sempre cabem todas as tuas dúvidas somadas aos meus medos, divididas pelas nossas ansiedades, elevadas à nossa hipocrisia ao quadrado.
Não me recordo da tua voz. É talvez o que mais me dói.
Lembro o teu beijo, o teu cheiro, os teus braços fortes a acolher-me os medos, a acalmar-me as ansiedades. Mas a tua voz…a tua voz não. E depois o medo. A recordação. Sim, é exactamente isso. A recordação. Aquela noite repetida na minha memória, aquela noite tantas e tantas vezes. A camisola vermelha, as mãos trémulas e a minha boca a querer dizer-te,
- Adoro-te,
E o coração a chamar-me ridícula. O coração de uma rua. O coração, esse bicho de um só sentido.
Depois, o corpo assustado, hesitante, o olhar nervoso. As mãos a dizer,
- fica.
E tu a partir. Tu a partir sem que me deixasses sequer dizer-te adeus.
As minhas mãos,
fica,
E tu a deixares-te ir pouco a pouco, a levares um pouco de mim. Minto. A levares tudo de mim.
E o médico,
- Fizemos tudo o que podíamos.
E eu a saber que nós nunca podemos nada. Que nós nunca somos nada.
Eu a saber que as palavras são apenas palavras. E que as que não te disse são exactamente iguais aquelas que todos deixamos por dizer.
E o meu olhar, e o meu medo. E todas as coisas que sendo minhas, naquele dia deixaram de me pertencer.
E a tua voz já perdida no tempo,
- a miúda tem jeito para a coisa.
E é por ti. É por ti que estou aqui. É por ti que nasço e morro todos os dias na folha de papel. É por ti que escrevo e são para ti todas as palavras que um dia nunca soube ou pude dizer-te. É para ti o que ainda resta depois da partida.
Isa Mestre
As frases de três palavras são quase sempre as mais difíceis de dizer. Como se ficassem presas na garganta, como se o coração, de repente, fosse apenas uma rua. Não uma estrada, como tantas vezes pensáramos. Uma rua. Sim. Uma rua.
Uma rua onde nem sempre cabem todas as tuas dúvidas somadas aos meus medos, divididas pelas nossas ansiedades, elevadas à nossa hipocrisia ao quadrado.
Não me recordo da tua voz. É talvez o que mais me dói.
Lembro o teu beijo, o teu cheiro, os teus braços fortes a acolher-me os medos, a acalmar-me as ansiedades. Mas a tua voz…a tua voz não. E depois o medo. A recordação. Sim, é exactamente isso. A recordação. Aquela noite repetida na minha memória, aquela noite tantas e tantas vezes. A camisola vermelha, as mãos trémulas e a minha boca a querer dizer-te,
- Adoro-te,
E o coração a chamar-me ridícula. O coração de uma rua. O coração, esse bicho de um só sentido.
Depois, o corpo assustado, hesitante, o olhar nervoso. As mãos a dizer,
- fica.
E tu a partir. Tu a partir sem que me deixasses sequer dizer-te adeus.
As minhas mãos,
fica,
E tu a deixares-te ir pouco a pouco, a levares um pouco de mim. Minto. A levares tudo de mim.
E o médico,
- Fizemos tudo o que podíamos.
E eu a saber que nós nunca podemos nada. Que nós nunca somos nada.
Eu a saber que as palavras são apenas palavras. E que as que não te disse são exactamente iguais aquelas que todos deixamos por dizer.
E o meu olhar, e o meu medo. E todas as coisas que sendo minhas, naquele dia deixaram de me pertencer.
E a tua voz já perdida no tempo,
- a miúda tem jeito para a coisa.
E é por ti. É por ti que estou aqui. É por ti que nasço e morro todos os dias na folha de papel. É por ti que escrevo e são para ti todas as palavras que um dia nunca soube ou pude dizer-te. É para ti o que ainda resta depois da partida.
Isa Mestre
quinta-feira, setembro 17, 2009
Demanda
Usaste poucas palavras. Ensinaste-me desde sempre que não precisamos utilizar muitas se o fizermos com o coração, se o fizermos como se nos amássemos em cada letra, como se nos abraçássemos em cada verbo.
- sou a mulher mais triste do mundo,
Disseste.
Sem deter-me nos pormenores, sorri ao papel que se estendia diante dos meus olhos. Confesso que, de certa forma sempre me fascinou essa tua atracção pelo dramatismo, esse misto de ligeireza e leviandade.
Gostava de poder-te tê-lo dito um dia. Um dia em que os corações se calassem para ouvir apenas a voz que, de quando em vez, ecoa no seu interior, que, de quando em vez, se une na batida descompassada de um amor a quem nunca poderão ser impostos limites.
- sou o homem mais triste do mundo,
(Acredito que a fragilidade é, de certa forma, contagiosa.)
Continuo a escrever-te. Nada me pode deter. Prometi dizer-te tudo apenas numa carta, prometi poupar-te à tristeza das minhas metáforas e à inabilidade dos meus oximoros.
Afinal tu bem sabes, não há nada mais aborrecido do que casar com um escritor.
Pediste-me para ficar só. Sorri-te. Afinal, o que é o amor senão solidão?
Não tenhas medo. Não te pedirei para ficar. Não há cartões de embarque com passaportes caducados.
Nunca poderás perdoar-me, eu sei. Nunca poderás entender que é na dor que encontramos o mais perfeito miradouro para o coração, o mais completo caminho rumo ao sentimento.
Disseste,
- sou a mulher mais triste do mundo,
Não tenho coragem de ler o final da frase. Dói-me a inevitabilidade do verbo que se segue.
Talvez tenhas razão, talvez eu seja apenas mais um daqueles a quem falta arte e sobeja hipocrisia.
Isa Mestre
- sou a mulher mais triste do mundo,
Disseste.
Sem deter-me nos pormenores, sorri ao papel que se estendia diante dos meus olhos. Confesso que, de certa forma sempre me fascinou essa tua atracção pelo dramatismo, esse misto de ligeireza e leviandade.
Gostava de poder-te tê-lo dito um dia. Um dia em que os corações se calassem para ouvir apenas a voz que, de quando em vez, ecoa no seu interior, que, de quando em vez, se une na batida descompassada de um amor a quem nunca poderão ser impostos limites.
- sou o homem mais triste do mundo,
(Acredito que a fragilidade é, de certa forma, contagiosa.)
Continuo a escrever-te. Nada me pode deter. Prometi dizer-te tudo apenas numa carta, prometi poupar-te à tristeza das minhas metáforas e à inabilidade dos meus oximoros.
Afinal tu bem sabes, não há nada mais aborrecido do que casar com um escritor.
Pediste-me para ficar só. Sorri-te. Afinal, o que é o amor senão solidão?
Não tenhas medo. Não te pedirei para ficar. Não há cartões de embarque com passaportes caducados.
Nunca poderás perdoar-me, eu sei. Nunca poderás entender que é na dor que encontramos o mais perfeito miradouro para o coração, o mais completo caminho rumo ao sentimento.
Disseste,
- sou a mulher mais triste do mundo,
Não tenho coragem de ler o final da frase. Dói-me a inevitabilidade do verbo que se segue.
Talvez tenhas razão, talvez eu seja apenas mais um daqueles a quem falta arte e sobeja hipocrisia.
Isa Mestre
domingo, agosto 16, 2009
Talvez
Disse,
- Posso ainda fazer-te feliz. E as palavras a soarem tão sinceras, tão breves, por momentos tão melódicas quanto verdadeiras. Depois, o teu olhar, o teu sorriso, depois todas as coisas às quais nunca saberei ao certo que nome dar.
Ela pergunta-me se esqueci.
Como poderia esquecer?,
Apetece-me dizer-lhe.
Fico em silêncio. Estou demasiado habituada a ele. Somos dois desconhecidos a habitar o mesmo espaço, os mesmos sete palmos de terra que por vezes se assemelham a uma mão repleta de solidão a querem abraçar-nos com fulgor, pedindo-nos que fiquemos, que fiquemos para sempre.
Ela olha-me, eu devolvo-lhe o olhar. Há meses que assim é. Há meses que luta por uma palavra, por uma frase, por um latido que denuncie a minha dor. Preocupa-se comigo. Consigo sabê-lo, consigo senti-lo. De certa forma, creio que a única razão que a traz aqui é tentar perceber se ainda estou viva.
Que poderia dizer-lhe? Que saberia eu dizer-lhe quando inúmeras vezes sei tão pouco.
Talvez um dia lhe conte a nossa história. Talvez um dia lhe conte do dia em que te disse com olhos brilhantes e voz serena,
- Posso ainda fazer-te feliz,
Talvez lhe conte do dia em que partiste. Talvez lhe conte do dia em que nunca mais pudeste voltar. Talvez doa. Talvez magoe. Talvez.
Por momentos sou ainda a menina de olhar doce e palavras embaladas pelo vento,
-Posso ainda fazer-te feliz.
Por momentos és ainda a única pessoa que soube e pude amar,
- Sabes que fujo da felicidade a sete pés.
Tinhas razão. Fugiste mais rápido que o próprio tempo, mas esqueceste-te que depois da morte apenas o amor pode curar os corações partidos.
Isa Mestre
- Posso ainda fazer-te feliz. E as palavras a soarem tão sinceras, tão breves, por momentos tão melódicas quanto verdadeiras. Depois, o teu olhar, o teu sorriso, depois todas as coisas às quais nunca saberei ao certo que nome dar.
Ela pergunta-me se esqueci.
Como poderia esquecer?,
Apetece-me dizer-lhe.
Fico em silêncio. Estou demasiado habituada a ele. Somos dois desconhecidos a habitar o mesmo espaço, os mesmos sete palmos de terra que por vezes se assemelham a uma mão repleta de solidão a querem abraçar-nos com fulgor, pedindo-nos que fiquemos, que fiquemos para sempre.
Ela olha-me, eu devolvo-lhe o olhar. Há meses que assim é. Há meses que luta por uma palavra, por uma frase, por um latido que denuncie a minha dor. Preocupa-se comigo. Consigo sabê-lo, consigo senti-lo. De certa forma, creio que a única razão que a traz aqui é tentar perceber se ainda estou viva.
Que poderia dizer-lhe? Que saberia eu dizer-lhe quando inúmeras vezes sei tão pouco.
Talvez um dia lhe conte a nossa história. Talvez um dia lhe conte do dia em que te disse com olhos brilhantes e voz serena,
- Posso ainda fazer-te feliz,
Talvez lhe conte do dia em que partiste. Talvez lhe conte do dia em que nunca mais pudeste voltar. Talvez doa. Talvez magoe. Talvez.
Por momentos sou ainda a menina de olhar doce e palavras embaladas pelo vento,
-Posso ainda fazer-te feliz.
Por momentos és ainda a única pessoa que soube e pude amar,
- Sabes que fujo da felicidade a sete pés.
Tinhas razão. Fugiste mais rápido que o próprio tempo, mas esqueceste-te que depois da morte apenas o amor pode curar os corações partidos.
Isa Mestre
Subscrever:
Mensagens (Atom)

