Eu ainda me lembro...Dizias que eu esqueceria, mas, hoje, passados tantos anos, eu ainda me lembro.
Ainda me lembro do teu rosto envelhecido debruçado sobre o verde replandecente do campo, o contraste da luz dos teus olhos com as ervas daninhas, o reflexo do teu sorriso no mais puro cantinho do céu.
Levavas-me pela mão, a tua mão calejada do trabalho, manchada da velhice, a mão experiente que conduzia na perfeição a minha meninice imatura.
Recordo-me que queria correr, e tu, já menos hábil, falavas-me das tuas pernas, das tuas frágeis pernas já incapazes de acompanhar o meu ritmo louco de menina que anseia descobrir o mundo a cada passo. Mas, lá ias atrás de mim e sempre que eu corria, lá estavas tu atrás de mim para me amparar as quedas.
O caminho parecia sempre tão longo para as tuas pernas cansadas de tanto percorrer o caminho da vida, mas para mim era sempre mais um passeio, uma descoberta, um mistério, um sonho.
Eu ainda me lembro...dos teus olhos cintilantes, do orgulho com que me olhavas, do carinho com que me aconchegavas junto do teu seio vivido. Eu ainda não esqueci que íamos junto da ribeira apanhar rosmaninho e erva ursa para colocar na fogueira.
A fogueira dos nossos sentimentos, aquela que saltei tantas vezes desafiando o fogo do amor que nos unia, a fogueira que anos mais tarde me queimou, que ainda me queima.
As tuas mãos sempre colheram o melhor rosmaninho, o mais colorido, o mais perfumado, aquele que encheria as minhas mãos da pureza que desejavas para mim.
Naqueles momentos sabia que me amavas, mais do que qualquer palavra, mais do que qualquer bilhete deixado ao acaso pela rua, eu sabia que me amavas por aquilo que era. Como se amam aqueles que são do nosso sangue, como se amam os filhos, amaste-me.
Depois de colhermos rosmanhinho e erva ursa, a fogueira da vida queimou-me os sentimentos, e hoje são apenas as minhas mãos que, por entre as ervinhas, procuram o rosmaninho mais perfumado, belo e puro para colocar junto da tua sepultura.
Recordo a tua voz, os conselhos, a mão carregada de sonhos, como se em cada pétala das flores que colhesses encontrasses um novo mundo a nascer dentro deste mesmo mundo.
Sabes...nunca mais apanhei erva ursa, nunca mais colhi rosmaninho para saltar a fogueira, nunca mais comi os bolinhos que só tu sabias fazer. Não, nunca mais... Porque há coisas que nunca mudam, porque há coisas que quando se perdem não voltam mais, ficam aqui, dentro do coração, onde tu também estás.
Todos os dias te vejo, ainda a apanhar o rosmaninho dos velhos tempos, aquele que parecia sempre transportar consigo o perfume da perfeição, da plenitude da minha infância onde não havia espinhos, não havia espadas, não havia punhais de dor inseridos profundamente na minha pele.
Não, não havia. Até partires o mundo pareceu-me perfeito.
Até ao último dia em que colhemos rosmaninho e erva ursa eu acreditei poder saltar a fogueira contigo. Hoje não, sei que por mais que o deseje, apenas poderei saltá-la sozinha.
Isa Mestre
terça-feira, julho 25, 2006
terça-feira, julho 18, 2006
Sonhos Teus
Eu vim, naquela noite fria eu vim e tu ficaste.
Ficaste para montar as tendas em que dormiríamos nessa noite, ficaste para sonhar mais um pouco porque a mim o sono da escuridão já me cerrava os olhos por completo, ficaste para imaginar que terias filhos e construirias mundos ao lado de outra pessoa, ficaste para dizer os nomes dos garotos antes de adormeceres...
Mas eu não mais estaria, não voltarias a imaginar que sou essa pessoa pela qual esperaste tantos anos. Não o faças, porque eu não sou, não sou nem quero ser.
Não te disse adeus. Tu bem sabes como odeio despedidas...Afinal, para quê dizer-te adeus se amanhã seguirás os meus passos e trarás os teus sonhos para junto dos meus? Se amanhã quererás abraçar-me e dizer-me que vamos ter muitos filhos e uma casa grande para acolhê-los a todos? Eu sentir-me-ei pequeno outra vez, porque as minhas mãos estão vazias e tu insistes em enche-las com sonhos que não são meus, com vidas que nunca vivi, com alegrias que não existem no interior da minha rudeza.
Não quero magoar-te, afinal ainda és o fruto verde da àrvore madura e cansada do tempo, ainda és o amanhecer quando o pôr-do-sol já se estende sobre os meus horizontes longínquos.
Crescerás, habituar-te-ás a ver-me partir , a ver-me cobarde e incapaz de dizer-te que os teus sonhos não são os mesmos que os meus e que a vida que construiste nunca foi o alicerce que imaginei na minha casa do futuro.
Não te digo nada, porque como o meu pai dizia, o silêncio diz tudo aquilo que as palavras se revelam incapazes de expressar.
Por isso, quero que sigas em frente sem olhar para trás, sem imaginar a minha imagem a partir da praia da tua vida, sem as ondas do meu corpo a bailar sobre o teu, segue e não me procures, mas, por favor, também não me esqueças.
Pensa apenas que fui um episódio da tua vida, como nas novelas, como nos filmes em que acaba sempre tudo bem. Vem, finge que pões a cassete da tua vida e recorda-me, vee-me partir e pergunta-me porque vou, para onde vou, que mal fizeste. Vem, pergunta! Pergunta que eu permanecerei calado apenas para não te magoar, para não tolher da terra essas tuas raízes profundas e carregadas de vida.
Matar-te-ia se te retirasse os sonhos , por isso, prefiro morrer...sozinho, perdido, apenas com a tua imagem no pensamento.
Não sonharei que teremos muitos filhos, nem casas, nem luxo, nem sequer imaginarei ter-te a meu lado para o resto da vida, porque por agora bastar-me-ia ter-te aqui, no deserto de mim, onde não há sonhos, não há ambições, não há lutas...onde só existes tu, tu e mais ninguém.
Se vens para o meu mundo, deixa os sonhos do lado de fora da porta, tal como um saco de compras que repousa sobre a tapete da entrada, deixa-os! Porque os sonhos, tal como os sacos de compras são pesados, são demasiado pesados para transportá-los sempre comigo.
Isa Mestre
Ficaste para montar as tendas em que dormiríamos nessa noite, ficaste para sonhar mais um pouco porque a mim o sono da escuridão já me cerrava os olhos por completo, ficaste para imaginar que terias filhos e construirias mundos ao lado de outra pessoa, ficaste para dizer os nomes dos garotos antes de adormeceres...
Mas eu não mais estaria, não voltarias a imaginar que sou essa pessoa pela qual esperaste tantos anos. Não o faças, porque eu não sou, não sou nem quero ser.
Não te disse adeus. Tu bem sabes como odeio despedidas...Afinal, para quê dizer-te adeus se amanhã seguirás os meus passos e trarás os teus sonhos para junto dos meus? Se amanhã quererás abraçar-me e dizer-me que vamos ter muitos filhos e uma casa grande para acolhê-los a todos? Eu sentir-me-ei pequeno outra vez, porque as minhas mãos estão vazias e tu insistes em enche-las com sonhos que não são meus, com vidas que nunca vivi, com alegrias que não existem no interior da minha rudeza.
Não quero magoar-te, afinal ainda és o fruto verde da àrvore madura e cansada do tempo, ainda és o amanhecer quando o pôr-do-sol já se estende sobre os meus horizontes longínquos.
Crescerás, habituar-te-ás a ver-me partir , a ver-me cobarde e incapaz de dizer-te que os teus sonhos não são os mesmos que os meus e que a vida que construiste nunca foi o alicerce que imaginei na minha casa do futuro.
Não te digo nada, porque como o meu pai dizia, o silêncio diz tudo aquilo que as palavras se revelam incapazes de expressar.
Por isso, quero que sigas em frente sem olhar para trás, sem imaginar a minha imagem a partir da praia da tua vida, sem as ondas do meu corpo a bailar sobre o teu, segue e não me procures, mas, por favor, também não me esqueças.
Pensa apenas que fui um episódio da tua vida, como nas novelas, como nos filmes em que acaba sempre tudo bem. Vem, finge que pões a cassete da tua vida e recorda-me, vee-me partir e pergunta-me porque vou, para onde vou, que mal fizeste. Vem, pergunta! Pergunta que eu permanecerei calado apenas para não te magoar, para não tolher da terra essas tuas raízes profundas e carregadas de vida.
Matar-te-ia se te retirasse os sonhos , por isso, prefiro morrer...sozinho, perdido, apenas com a tua imagem no pensamento.
Não sonharei que teremos muitos filhos, nem casas, nem luxo, nem sequer imaginarei ter-te a meu lado para o resto da vida, porque por agora bastar-me-ia ter-te aqui, no deserto de mim, onde não há sonhos, não há ambições, não há lutas...onde só existes tu, tu e mais ninguém.
Se vens para o meu mundo, deixa os sonhos do lado de fora da porta, tal como um saco de compras que repousa sobre a tapete da entrada, deixa-os! Porque os sonhos, tal como os sacos de compras são pesados, são demasiado pesados para transportá-los sempre comigo.
Isa Mestre
terça-feira, julho 04, 2006
Levo-te na alma
Eu vou, com asas de sonho, eu vou para longe.
Mas levo as nossas recordações comigo, levo a tua fotografia na minha carteira e o teu sorriso no bolso. Assim será mais fácil sorrir-te, como se nesta folha de papel fosses tu e não apenas o progresso do mundo espelhado na fotografia que trago comigo.
Levo-te, como nas manhãs em que caminhei solitária para o trabalho, sem ti, sem carinho, sem saber onde dormiste nem por que ruas vagueaste.
Só queria que me acordasses quando chegasses a casa, nem que fosse para dizer que estava tudo bem, para depositar um beijo nas minhas faces ainda coradas pelo calor eterno da almofada.
Mas tu não vieste. Nessa noite não vieste.
O nosso filho adormeceu com as minhas histórias, com a minha voz trémula de quem tenta disfarçar a dor e encontrar caminhos no deserto da solidão. E ele perguntou por ti...eu sorri-lhe timidamente e julgando enganá-lo, disse-lhe apenas: Vamos, querido, vai lavar os dentes, já é tarde.
E ele foi. Não voltou a perguntar pelo “papá”, pelo homem que se tornara um desconhecido no seio da sua própria família.
Quantas vezes me perguntara eu o mesmo que o nosso filho, meu amor....quantas?
Por onde andaste? Por onde andaste nas noites frias de Inverno? Por onde andaste quando o teu filho chamou por ti? Por onde? Por onde?
Não sei.
E agora ainda ouves a sua voz? Agora que cresceu, que se fez homem e construiu com as suas mãos os caminhos que se estendem diante do seu olhar.
Mas, hoje, ainda te chama. “Papá, papá....” , na sua voz de homenzinho, e chora timidamente na almofada, finge não sentir aquilo que ambos transportamos no peito: a dor.
A dor de nunca mais poder tocar-te, ouvir-te, sentir-te apertar-nos contra o teu peito.
Nessa noite tu não vieste, tu nunca mais vieste.
E eu não soube dizer-lhe onde estavas, para onde ias, porque não voltavas...não soube. Porque por vezes as mães não sabem tudo.
A vida respondeu-lhe...com o tempo, com o apaziguar da dor, com a saudade.
Sim, ainda hoje a vida sabe dizer-lhe onde estás.
E ele olha-me timidamente, aponta para o céu e sorri, como se ainda estivesses no cimo do nosso telhado a concertar as telhas.
Um dia havemos de escrever a tua história na areia da praia, a água virá e apagará todos os nomes, mas ficará a marca dos nossos dedinhos no coração do mundo, tal como ficaste em nós.
Amor, ainda espero que venhas, que me acordes e me digas que a noite foi terrível, ainda espero que me prometas que no dia seguinte não preciso esperar por ti, porque já lá estarás quando chamar pelo teu nome.
Espero mas não vens, sei que nunca mais vens.
Como naquela noite, como quando o teu corpo esqueceu a vida e sonhou para além dos nossos horizontes...quando eu não sabia onde estavas e morrias afinal sem um adeus, sem um “amo-te” que ficasse para sempre no meu olhar de menina.
Por isso, hoje eu vou, levo o nosso menino pela mão e vou em busca dos sonhos que perdemos quando partiste.
Sei onde estás. Estás aqui...entre mim e ele, no entrelaçar dos nossos dedos, nas batidas compassadas dos nossos corações, estás no meu bolso e na minha alma.
Isa Mestre
Mas levo as nossas recordações comigo, levo a tua fotografia na minha carteira e o teu sorriso no bolso. Assim será mais fácil sorrir-te, como se nesta folha de papel fosses tu e não apenas o progresso do mundo espelhado na fotografia que trago comigo.
Levo-te, como nas manhãs em que caminhei solitária para o trabalho, sem ti, sem carinho, sem saber onde dormiste nem por que ruas vagueaste.
Só queria que me acordasses quando chegasses a casa, nem que fosse para dizer que estava tudo bem, para depositar um beijo nas minhas faces ainda coradas pelo calor eterno da almofada.
Mas tu não vieste. Nessa noite não vieste.
O nosso filho adormeceu com as minhas histórias, com a minha voz trémula de quem tenta disfarçar a dor e encontrar caminhos no deserto da solidão. E ele perguntou por ti...eu sorri-lhe timidamente e julgando enganá-lo, disse-lhe apenas: Vamos, querido, vai lavar os dentes, já é tarde.
E ele foi. Não voltou a perguntar pelo “papá”, pelo homem que se tornara um desconhecido no seio da sua própria família.
Quantas vezes me perguntara eu o mesmo que o nosso filho, meu amor....quantas?
Por onde andaste? Por onde andaste nas noites frias de Inverno? Por onde andaste quando o teu filho chamou por ti? Por onde? Por onde?
Não sei.
E agora ainda ouves a sua voz? Agora que cresceu, que se fez homem e construiu com as suas mãos os caminhos que se estendem diante do seu olhar.
Mas, hoje, ainda te chama. “Papá, papá....” , na sua voz de homenzinho, e chora timidamente na almofada, finge não sentir aquilo que ambos transportamos no peito: a dor.
A dor de nunca mais poder tocar-te, ouvir-te, sentir-te apertar-nos contra o teu peito.
Nessa noite tu não vieste, tu nunca mais vieste.
E eu não soube dizer-lhe onde estavas, para onde ias, porque não voltavas...não soube. Porque por vezes as mães não sabem tudo.
A vida respondeu-lhe...com o tempo, com o apaziguar da dor, com a saudade.
Sim, ainda hoje a vida sabe dizer-lhe onde estás.
E ele olha-me timidamente, aponta para o céu e sorri, como se ainda estivesses no cimo do nosso telhado a concertar as telhas.
Um dia havemos de escrever a tua história na areia da praia, a água virá e apagará todos os nomes, mas ficará a marca dos nossos dedinhos no coração do mundo, tal como ficaste em nós.
Amor, ainda espero que venhas, que me acordes e me digas que a noite foi terrível, ainda espero que me prometas que no dia seguinte não preciso esperar por ti, porque já lá estarás quando chamar pelo teu nome.
Espero mas não vens, sei que nunca mais vens.
Como naquela noite, como quando o teu corpo esqueceu a vida e sonhou para além dos nossos horizontes...quando eu não sabia onde estavas e morrias afinal sem um adeus, sem um “amo-te” que ficasse para sempre no meu olhar de menina.
Por isso, hoje eu vou, levo o nosso menino pela mão e vou em busca dos sonhos que perdemos quando partiste.
Sei onde estás. Estás aqui...entre mim e ele, no entrelaçar dos nossos dedos, nas batidas compassadas dos nossos corações, estás no meu bolso e na minha alma.
Isa Mestre
terça-feira, junho 20, 2006
Grito
Era menino, porém, não como tantos outros, com toda aquela magia e força de viver que a infância transporta.
Não, ele não.
Menino de cabelos claros e pele negra, queimada do sol, queimada da vida, queimada da fogueira de sentimentos que se cruzavam à sua volta.
Menino que nascera no seio de uma família triste e crescera no berço do desconsolo e da falta de amor, menino de olhos repletos dessa luz e da inquietação do espírito que não vive, sobrevive, da alma que não voa , apenas plana.
Desprovido de sentimentos ele caminhou, fez-se herói pela estrada do mundo, sofrendo a cada dia, escrevendo no caderno da vida as duras páginas do seu destino.
Até aquele dia, ao momento em que sorri e olhando para a minha garrafa de água lhe perguntei: Se esta garrafa fosse uma varinha mágica que transformasse todos os teus sonhos em realidade, que pedirias?
No ar pairou a magia dos meninos, daqueles que teriam pedido mundos...bonecos, carrinhos, cromos de jogadores de futebol, berlindes...mas ele não, ele, fazendo face ao meu sorriso repleto de alegria disse secamente: A morte.
Pedira-me a morte, e eu olhava-o com comoção, apetecia-me abraçá-lo, dizer-lhe que ficaria tudo bem, que o levaria para minha casa e juntos construiríamos um novo mundo para si, um espaço onde só a vida pudesse permanecer, uma alegria em que a tristeza da morte fosse meramente passageira.
Mas, permaneci calada, prisioneira de mim mesma, acorrentada ao sentimento de pena, rancor, ódio e raiva. Mas porquê? Porquê? Porque não crescera aquele menino como crescem tantos outros, no seio de uma família feliz, acarinhado por todos, amado , respeitado, educado pelas duras leis da vida...Porquê? Porque me pedia ele a morte com toda uma vida repleta de sonhos por viver?
Ou será que nesta vida insuportável a morte seria o alívio para todo o sofrimento? Não sei.
Mas ele pediu a morte, um menino de tenra idade pediu o final da vida ainda no seu início.
Apeteceu-me gritar ao mundo, gritar amargamente com a voz daquele menino, gritar ao “Papá” e à “Mamã” que há um filho para criar, uma semente a crescer no jardim da vida, uma semente na qual é preciso fomentar alegria, carinho, orgulho, uma semente forte que um dia será o tronco da árvore do futuro.
E porque não crescera ele como todas as sementinhas do jardim da vida? Porque houve ódio, incompreensão, desprezo, houve alguém que trocou o próprio fruto que gerou pelo desejo de amar e ser amada, alguém que preferiu sorrir ao invés de ver sorrir aqueles que são grande parte de si, alguém que enquando deveria ter-lhe passado a mão pela cabeça e dizer-lhe que ficaria tudo bem, vagueava perdida e vagabunda pelas estradas errantes da vida.
E agora, ali estava o fruto da dor, da dor que mata e fere os corações dos inocentes, e esse fruto era o menino de pele escura e olhos profundos, o menino que perante tanto sonho desejou apenas morrer. Ouviram? Morrer.
Isa Mestre
Não, ele não.
Menino de cabelos claros e pele negra, queimada do sol, queimada da vida, queimada da fogueira de sentimentos que se cruzavam à sua volta.
Menino que nascera no seio de uma família triste e crescera no berço do desconsolo e da falta de amor, menino de olhos repletos dessa luz e da inquietação do espírito que não vive, sobrevive, da alma que não voa , apenas plana.
Desprovido de sentimentos ele caminhou, fez-se herói pela estrada do mundo, sofrendo a cada dia, escrevendo no caderno da vida as duras páginas do seu destino.
Até aquele dia, ao momento em que sorri e olhando para a minha garrafa de água lhe perguntei: Se esta garrafa fosse uma varinha mágica que transformasse todos os teus sonhos em realidade, que pedirias?
No ar pairou a magia dos meninos, daqueles que teriam pedido mundos...bonecos, carrinhos, cromos de jogadores de futebol, berlindes...mas ele não, ele, fazendo face ao meu sorriso repleto de alegria disse secamente: A morte.
Pedira-me a morte, e eu olhava-o com comoção, apetecia-me abraçá-lo, dizer-lhe que ficaria tudo bem, que o levaria para minha casa e juntos construiríamos um novo mundo para si, um espaço onde só a vida pudesse permanecer, uma alegria em que a tristeza da morte fosse meramente passageira.
Mas, permaneci calada, prisioneira de mim mesma, acorrentada ao sentimento de pena, rancor, ódio e raiva. Mas porquê? Porquê? Porque não crescera aquele menino como crescem tantos outros, no seio de uma família feliz, acarinhado por todos, amado , respeitado, educado pelas duras leis da vida...Porquê? Porque me pedia ele a morte com toda uma vida repleta de sonhos por viver?
Ou será que nesta vida insuportável a morte seria o alívio para todo o sofrimento? Não sei.
Mas ele pediu a morte, um menino de tenra idade pediu o final da vida ainda no seu início.
Apeteceu-me gritar ao mundo, gritar amargamente com a voz daquele menino, gritar ao “Papá” e à “Mamã” que há um filho para criar, uma semente a crescer no jardim da vida, uma semente na qual é preciso fomentar alegria, carinho, orgulho, uma semente forte que um dia será o tronco da árvore do futuro.
E porque não crescera ele como todas as sementinhas do jardim da vida? Porque houve ódio, incompreensão, desprezo, houve alguém que trocou o próprio fruto que gerou pelo desejo de amar e ser amada, alguém que preferiu sorrir ao invés de ver sorrir aqueles que são grande parte de si, alguém que enquando deveria ter-lhe passado a mão pela cabeça e dizer-lhe que ficaria tudo bem, vagueava perdida e vagabunda pelas estradas errantes da vida.
E agora, ali estava o fruto da dor, da dor que mata e fere os corações dos inocentes, e esse fruto era o menino de pele escura e olhos profundos, o menino que perante tanto sonho desejou apenas morrer. Ouviram? Morrer.
Isa Mestre
sexta-feira, junho 09, 2006
Ninguém
Já não há nomes nesta nossa terra gasta do tempo. Agora apenas a flauta a tocar canções, as mesmas canções que sem precisar de palavras dizem tudo o que há para dizer. Apenas a flauta para me anunciar que ainda estás aí, que o meu vento ainda é o tempo e que o meu olhar ainda é o arco-iris do teu frágil corpo.
Mas também eu já não tenho nome, está gasto...do tempo, do uso, do tanto chamar pelos corredores infinitos da vida, gasto como as palavras, inútil como trapos velhos arruínados pelo tempo.
Por isso, se me quiseres chamar, chama-me com tudo aquilo que tens dentro desse peito, ouvir-te-ei. Não precisamos das palavras que nos definem, que nos rotulam, que nos identificam, por que nós somos a essência, o perfume, o sentir que transportamos connosco.
Por isso, ainda que eu seja ninguém, chama-me, chama-me como se chamasses o tempo, a vida ou a felicidade.
Perdémos os nomes pela rua...Sim, eu sei que os perdémos mas não deixámos de ser quem somos, de amar, de viver... E hoje não faria diferente daquela noite, hoje, deixá-los-ia exactamente onde ficaram...no tempo que os levou pelo imenso céu da vida.
Não chamas por mim. mas ouço-te, do fundo da montanha do meu ser é a tua voz que ecoa nos vales da minha solidão, nas planícies douradas da saudade. È a tua voz que me chama, e eu vou. Não conheço os caminhos, perco-me, torno-me vagabunda e entrego-me ao mundo, mas vou, sigo a tua voz e vou onde ela me levar.
Chamam-me. Esqueço. Quem sou eu? Quem julgaste que eu era? Sou pena levada pelo vento, sou sorriso no teu rosto, sou poesia dentro de ti, sou luz na tua imensa escuridão, sou.
Sou apenas eu, sem um nome, sem um destino, sem uma vida. Sou. Será que isso não basta? Houve tantos que nem souberam ser, que hoje entendo que há mundo dentro de mim, há avenidas iluminadas e luzes ao final da estrada, há algo que me mantêm viva e me afasta da loucura desses dias que te consomem.
Não preciso de nome, cresci naquilo que sou, com os erros, com as loucuras, também com as escolhas acertadas pela vida fora. Talvez outros digam que consegui ser alguém, mas eu hei-de ser sempre apenas a menina que baila com os sonhos, que sorri, que também chora... E quando me perguntares o meu nome, hei-de permanecer no silêncio, o silêncio de quem não tem nome, o silêncio que te dirá quem sou.
Ninguém.
Quem sabe seja isso mesmo.
Isa Mestre
Mas também eu já não tenho nome, está gasto...do tempo, do uso, do tanto chamar pelos corredores infinitos da vida, gasto como as palavras, inútil como trapos velhos arruínados pelo tempo.
Por isso, se me quiseres chamar, chama-me com tudo aquilo que tens dentro desse peito, ouvir-te-ei. Não precisamos das palavras que nos definem, que nos rotulam, que nos identificam, por que nós somos a essência, o perfume, o sentir que transportamos connosco.
Por isso, ainda que eu seja ninguém, chama-me, chama-me como se chamasses o tempo, a vida ou a felicidade.
Perdémos os nomes pela rua...Sim, eu sei que os perdémos mas não deixámos de ser quem somos, de amar, de viver... E hoje não faria diferente daquela noite, hoje, deixá-los-ia exactamente onde ficaram...no tempo que os levou pelo imenso céu da vida.
Não chamas por mim. mas ouço-te, do fundo da montanha do meu ser é a tua voz que ecoa nos vales da minha solidão, nas planícies douradas da saudade. È a tua voz que me chama, e eu vou. Não conheço os caminhos, perco-me, torno-me vagabunda e entrego-me ao mundo, mas vou, sigo a tua voz e vou onde ela me levar.
Chamam-me. Esqueço. Quem sou eu? Quem julgaste que eu era? Sou pena levada pelo vento, sou sorriso no teu rosto, sou poesia dentro de ti, sou luz na tua imensa escuridão, sou.
Sou apenas eu, sem um nome, sem um destino, sem uma vida. Sou. Será que isso não basta? Houve tantos que nem souberam ser, que hoje entendo que há mundo dentro de mim, há avenidas iluminadas e luzes ao final da estrada, há algo que me mantêm viva e me afasta da loucura desses dias que te consomem.
Não preciso de nome, cresci naquilo que sou, com os erros, com as loucuras, também com as escolhas acertadas pela vida fora. Talvez outros digam que consegui ser alguém, mas eu hei-de ser sempre apenas a menina que baila com os sonhos, que sorri, que também chora... E quando me perguntares o meu nome, hei-de permanecer no silêncio, o silêncio de quem não tem nome, o silêncio que te dirá quem sou.
Ninguém.
Quem sabe seja isso mesmo.
Isa Mestre
sexta-feira, junho 02, 2006
Alma Nua
Talvez tivesses razão... Perdi a alma, perdi a roupa da alma que me vestia de sentimentos e me deixava tão nua perante o teu olhar.
Na vida é assim, perdemos tudo, perdemos os abraços, os beijos, o carinho, o amor, perdemos o ódio e a revolta, perdemos, perdemos...E tu sabes que perdemos.
Porém, hoje sigo nua pela estrada como uma vagabunda, não tenho roupas nem amor, não te tenho a ti, afinal apenas isto diria tudo.
Caminho rumo à vida, aquela que não escolhi, a que tu me indicaste com o dedinho frágil da tua mão trémula e eu simplesmente segui, confiante, decidida, apenas tua. Como costumavas dizer: Para sempre tua.
E perdi o rumo da minha própria vida...anulei as minhas escolhas para ceder às tuas, odiei o outrora amado, sorri ao invés de chorar, amei-te, amei-te e morri.
Morri no fundo do meu ser, despi a minha alma e deixei-a abandonada no cais das nossas vidas, embarquei no teu navio que prometia mundos e no final não me levou além do que já conhecia.
Sonhei coisas bonitas, como sonham as meninas, porque a teu lado eu seria eternamente uma menina.
Os nossos caminhos distanciaram-se, dissémos um ao outro que o amor morreu e ambos baixámos as nossas cabeças por sabermos que isso nunca seria possível.
Mas eu fui, eu fui e tu foste. Fomos aos nossos mundos, descobrimos a essência da vida, tocámos suavemente a liberdade e ganhámos asas de seda para voar no plano infinito dos nossos brilhantes olhos.
Mas, hoje, sozinha desço e subo a avenida, a nossa avenida. Sozinha, como na primeira vez, quando nos conhecemos, quando me disseste o teu nome que nunca mais esqueci. Continuo perdida, com asas, mas perdida por não saber para onde voar, porque a minha alma já não voa, plana.
Diz-me que nunca mais voltas, então dir-te-ei que venhas esta noite, que aqueças o meu coração com os sentimentos que te atravessam, perdir-te-ei que me vistas a alma. Quando vens? Vens?
Traz a última réstia de sol do dia para a escuridão da minha noite, traz o calor do teu quarto para as minhas noites frias e vazias, traz a alegria do teu peito e enche a minha casa, pinta as paredes de luz porque elas só já sabem chorar.
Por fim, traz sentimentos, porque talvez eu os tenha perdido com a dureza da vida.
Quem sabe se ainda será possível sonhar neste labirinto perdido de sonhos? Eu sei e tu sabes, por isso, vem.
Vem com aquilo que és, com o que transportas para o palco da vida, vem e não digas mais nada, sorri apenas.
O teu sorriso será o renascer, será abrigo para as tempestades e roupa para a alma nua. Ouviste? Nua.
Isa Mestre
Na vida é assim, perdemos tudo, perdemos os abraços, os beijos, o carinho, o amor, perdemos o ódio e a revolta, perdemos, perdemos...E tu sabes que perdemos.
Porém, hoje sigo nua pela estrada como uma vagabunda, não tenho roupas nem amor, não te tenho a ti, afinal apenas isto diria tudo.
Caminho rumo à vida, aquela que não escolhi, a que tu me indicaste com o dedinho frágil da tua mão trémula e eu simplesmente segui, confiante, decidida, apenas tua. Como costumavas dizer: Para sempre tua.
E perdi o rumo da minha própria vida...anulei as minhas escolhas para ceder às tuas, odiei o outrora amado, sorri ao invés de chorar, amei-te, amei-te e morri.
Morri no fundo do meu ser, despi a minha alma e deixei-a abandonada no cais das nossas vidas, embarquei no teu navio que prometia mundos e no final não me levou além do que já conhecia.
Sonhei coisas bonitas, como sonham as meninas, porque a teu lado eu seria eternamente uma menina.
Os nossos caminhos distanciaram-se, dissémos um ao outro que o amor morreu e ambos baixámos as nossas cabeças por sabermos que isso nunca seria possível.
Mas eu fui, eu fui e tu foste. Fomos aos nossos mundos, descobrimos a essência da vida, tocámos suavemente a liberdade e ganhámos asas de seda para voar no plano infinito dos nossos brilhantes olhos.
Mas, hoje, sozinha desço e subo a avenida, a nossa avenida. Sozinha, como na primeira vez, quando nos conhecemos, quando me disseste o teu nome que nunca mais esqueci. Continuo perdida, com asas, mas perdida por não saber para onde voar, porque a minha alma já não voa, plana.
Diz-me que nunca mais voltas, então dir-te-ei que venhas esta noite, que aqueças o meu coração com os sentimentos que te atravessam, perdir-te-ei que me vistas a alma. Quando vens? Vens?
Traz a última réstia de sol do dia para a escuridão da minha noite, traz o calor do teu quarto para as minhas noites frias e vazias, traz a alegria do teu peito e enche a minha casa, pinta as paredes de luz porque elas só já sabem chorar.
Por fim, traz sentimentos, porque talvez eu os tenha perdido com a dureza da vida.
Quem sabe se ainda será possível sonhar neste labirinto perdido de sonhos? Eu sei e tu sabes, por isso, vem.
Vem com aquilo que és, com o que transportas para o palco da vida, vem e não digas mais nada, sorri apenas.
O teu sorriso será o renascer, será abrigo para as tempestades e roupa para a alma nua. Ouviste? Nua.
Isa Mestre
domingo, maio 28, 2006
Feliz Inocência
Eu era feliz e não sabia.
Quando o céu se pintava eternamente de azul e a vida parecia estar em cada uma das estrelas que me acompanhavam pelo mundo, quando os pássaros traziam nos seus bicos a magia de mais um dia, quando eu sorria e não sabia ao certo porque sorria…eu era feliz.
Todas as coisas chamavam por mim e eu sorria…vagabunda, sonhadora, menina… sorria e via nas coisas tristes alguma felicidade, nas pétalas de cada flor a essência do meu próprio ser.
E dizia que a felicidade não se atinge, dizia que ser feliz é sorrir, apenas isso. Na verdade, era apenas isso, sorrir e transportar o mundo na palma da mão.
Por vezes as pessoas ganhavam dimensões dentro de mim, tornavam-se pesadas de mais para que as transportasse nos meus braços, então, levava-as no coração.
E ainda que eu não fosse feliz todos os dias, tinha em mim uma réstia de todos aqueles que pela vida fora conheceram a felicidade. Era um pouco do seu sorriso, da sua gargalhada, do seu ânimo, da sua força de viver.
Na planta da felicidade fui raiz, caule e flor, também dei os meus frutos, os nossos frutos.
Porém, a felicidade esteve perto de mais e quando isso acontece revelamo-nos quase sempre incapazes de agarrá-la, de compreendê-la, de conseguir dizer que somos felizes, sem medo de o fazer.
Mas, é nesses breves instantes que a nossa inocência de meninos que buscam toda a vida um ideal se cobre do nevoeiro das manhãs frias e nos mostra que há dias felizes e horas inesquecíveis.
Hoje sei.
Quando a felicidade parte sabemos que a tivemos nas mãos e deixamo-la escapar, porque fica apenas o seu rasto, a sua marca profunda naquilo que somos, o seu cheiro entranhado nas nossas roupas, a sua tatuagem nos nossos corpos e o desenho inesquecível nos corações.
Então, abrimos a janela e chamamos por ela.
Mas ela não vem, ela nunca vem.
Buscamo-la nos sítios errados quando, afinal, a temos tão perto, abrimos a janela e gritamos, quando basta apenas abrir a porta dos nossos corações e deixá-la entrar.
Hoje, ficou em mim.
Ficou o seu sorriso que é o meu, o sorriso que não esqueci.
Deixou-me ainda as palavras, as que me guiam pelo mundo e são a estrela que me permite alcançar o horizonte. Onde eu não estou as palavras encontram-me, recriam-me, fazem-me mulher, porque as mulheres fazem-se aos poucos.
Por isso, acredito que com tudo aquilo que ficou ainda é possível encontrar dentro de mim a pessoa que sonhou, que sorriu, que lutou e que venceu. Talvez eu ainda seja feliz e continue sem sabê-lo…
Isa Mestre
Quando o céu se pintava eternamente de azul e a vida parecia estar em cada uma das estrelas que me acompanhavam pelo mundo, quando os pássaros traziam nos seus bicos a magia de mais um dia, quando eu sorria e não sabia ao certo porque sorria…eu era feliz.
Todas as coisas chamavam por mim e eu sorria…vagabunda, sonhadora, menina… sorria e via nas coisas tristes alguma felicidade, nas pétalas de cada flor a essência do meu próprio ser.
E dizia que a felicidade não se atinge, dizia que ser feliz é sorrir, apenas isso. Na verdade, era apenas isso, sorrir e transportar o mundo na palma da mão.
Por vezes as pessoas ganhavam dimensões dentro de mim, tornavam-se pesadas de mais para que as transportasse nos meus braços, então, levava-as no coração.
E ainda que eu não fosse feliz todos os dias, tinha em mim uma réstia de todos aqueles que pela vida fora conheceram a felicidade. Era um pouco do seu sorriso, da sua gargalhada, do seu ânimo, da sua força de viver.
Na planta da felicidade fui raiz, caule e flor, também dei os meus frutos, os nossos frutos.
Porém, a felicidade esteve perto de mais e quando isso acontece revelamo-nos quase sempre incapazes de agarrá-la, de compreendê-la, de conseguir dizer que somos felizes, sem medo de o fazer.
Mas, é nesses breves instantes que a nossa inocência de meninos que buscam toda a vida um ideal se cobre do nevoeiro das manhãs frias e nos mostra que há dias felizes e horas inesquecíveis.
Hoje sei.
Quando a felicidade parte sabemos que a tivemos nas mãos e deixamo-la escapar, porque fica apenas o seu rasto, a sua marca profunda naquilo que somos, o seu cheiro entranhado nas nossas roupas, a sua tatuagem nos nossos corpos e o desenho inesquecível nos corações.
Então, abrimos a janela e chamamos por ela.
Mas ela não vem, ela nunca vem.
Buscamo-la nos sítios errados quando, afinal, a temos tão perto, abrimos a janela e gritamos, quando basta apenas abrir a porta dos nossos corações e deixá-la entrar.
Hoje, ficou em mim.
Ficou o seu sorriso que é o meu, o sorriso que não esqueci.
Deixou-me ainda as palavras, as que me guiam pelo mundo e são a estrela que me permite alcançar o horizonte. Onde eu não estou as palavras encontram-me, recriam-me, fazem-me mulher, porque as mulheres fazem-se aos poucos.
Por isso, acredito que com tudo aquilo que ficou ainda é possível encontrar dentro de mim a pessoa que sonhou, que sorriu, que lutou e que venceu. Talvez eu ainda seja feliz e continue sem sabê-lo…
Isa Mestre
domingo, maio 07, 2006
Fiquei
Não chorei. Saíste a correr e eu fiquei, perdida, triste, magoada, fiquei apenas mulher sentada à mesa onde conversámos. Fiquei com os sonhos, com os planos do nosso futuro, com as palavras que me deixaste, com a mágoa que semeaste no meu coração.
Permaneci calada enquanto a dor escreveu dentro de mim a nossa história, depois, abri esse livro e li as suas páginas, uma a uma, como quem vê o final se aproximar e deseja que para além daquelas páginas existam outras escondidas algures sobre o imenso dossier da vida. Esperei encontrar as desejadas páginas, busquei-as por toda a parte, toquei infinitas vezes nas palavras escritas esperando que se multiplicassem, que escrevessem novas histórias em que voltássemos a ser os protagonistas, esperei, esperei e morri.
Morri nessas páginas em que o nosso amor foi sepultado. Mas não chorei, não te pedi que voltasses, não te liguei, não te procurei. Fiquei apenas eu, eu e a dor que se sepultou no meu peito.
Quando a manhã se estendeu perante o meu olhar estiquei o braço na esperança de voltar a encontrar-te no espaço vazio, na ténue alegria de poder voltar a tocar-te e a sentir-te, na terna ilusão de voltar a ter-te a meu lado. Procurei-te nos objectos que ainda restaram da tua presença, porque as pessoas partem, os objectos não.
Mas não chorei. Contive as lágrimas e guardei as palavras que poderia ter-te dito nessa manhã de Setembro, guardei-as na caixinha do nosso amor, por isso, se ainda tiveres a chave e quiseres abri-la, fá-lo com cuidado para que não as deixes escapar por entre os teus dedos fugidios e vagabundos.
Quando a noite se aproximou, abri o guarda-fatos e olhei-me ao espelho, imaginei-te olhando-me também e na minha imagem surgiu o teu reflexo, a tua luz, a tua beleza dentro daquilo que sou. E vi-te uma vez mais. Estavas vestido de forma informal, tinhas nos olhos um brilho especial, como duas candeias na escuridão da minha noite. Chamaste-me. Eu fiquei, sentada na minha cama, como uma pobre menina que devaneia constantemente e já não distingue a recordação da realidade.
Chamaste-me e eu fiquei. Ouviste?
Não fingi que já não precisava de ti, mentiria se o dissesse, não disse que não me fazias falta, não afiancei que os meus olhos já não te procuravam na imensidão desta casa vazia. Não! Apenas fiquei. Fiquei porque não tinha o direito de ir e magoar-me uma vez mais, fiquei porque o meu amor é demasiado para tão pouco carinho, fiquei porque o coração me disse que a recordação é a mais bela coisa da vida, fiquei para não construir outros mundos e vê-los ruir diante dos meus olhos.
Enquanto vagueaste como um louco eu fiquei sentada na escuridão do meu quarto e ouvi-me, ouvi a voz que há dentro de mim, a voz que me disse que erguesse a cabeça e guardasse no coração o melhor de nós.
Fi-lo, fá-lo-ei para sempre, mas recuso-me a chorar e a procurar-te por aí quando afinal a recordação do nosso amor é tudo aquilo que resta de ti em mim.
Por isso, saíste e eu fiquei.
Isa Mestre
Permaneci calada enquanto a dor escreveu dentro de mim a nossa história, depois, abri esse livro e li as suas páginas, uma a uma, como quem vê o final se aproximar e deseja que para além daquelas páginas existam outras escondidas algures sobre o imenso dossier da vida. Esperei encontrar as desejadas páginas, busquei-as por toda a parte, toquei infinitas vezes nas palavras escritas esperando que se multiplicassem, que escrevessem novas histórias em que voltássemos a ser os protagonistas, esperei, esperei e morri.
Morri nessas páginas em que o nosso amor foi sepultado. Mas não chorei, não te pedi que voltasses, não te liguei, não te procurei. Fiquei apenas eu, eu e a dor que se sepultou no meu peito.
Quando a manhã se estendeu perante o meu olhar estiquei o braço na esperança de voltar a encontrar-te no espaço vazio, na ténue alegria de poder voltar a tocar-te e a sentir-te, na terna ilusão de voltar a ter-te a meu lado. Procurei-te nos objectos que ainda restaram da tua presença, porque as pessoas partem, os objectos não.
Mas não chorei. Contive as lágrimas e guardei as palavras que poderia ter-te dito nessa manhã de Setembro, guardei-as na caixinha do nosso amor, por isso, se ainda tiveres a chave e quiseres abri-la, fá-lo com cuidado para que não as deixes escapar por entre os teus dedos fugidios e vagabundos.
Quando a noite se aproximou, abri o guarda-fatos e olhei-me ao espelho, imaginei-te olhando-me também e na minha imagem surgiu o teu reflexo, a tua luz, a tua beleza dentro daquilo que sou. E vi-te uma vez mais. Estavas vestido de forma informal, tinhas nos olhos um brilho especial, como duas candeias na escuridão da minha noite. Chamaste-me. Eu fiquei, sentada na minha cama, como uma pobre menina que devaneia constantemente e já não distingue a recordação da realidade.
Chamaste-me e eu fiquei. Ouviste?
Não fingi que já não precisava de ti, mentiria se o dissesse, não disse que não me fazias falta, não afiancei que os meus olhos já não te procuravam na imensidão desta casa vazia. Não! Apenas fiquei. Fiquei porque não tinha o direito de ir e magoar-me uma vez mais, fiquei porque o meu amor é demasiado para tão pouco carinho, fiquei porque o coração me disse que a recordação é a mais bela coisa da vida, fiquei para não construir outros mundos e vê-los ruir diante dos meus olhos.
Enquanto vagueaste como um louco eu fiquei sentada na escuridão do meu quarto e ouvi-me, ouvi a voz que há dentro de mim, a voz que me disse que erguesse a cabeça e guardasse no coração o melhor de nós.
Fi-lo, fá-lo-ei para sempre, mas recuso-me a chorar e a procurar-te por aí quando afinal a recordação do nosso amor é tudo aquilo que resta de ti em mim.
Por isso, saíste e eu fiquei.
Isa Mestre
domingo, abril 16, 2006
Diz-me tu
Errei. Fi-lo inocentemente, levando o teu coração na minha mão sem saber ao certo que rumo seguir. Agora, queria pedir-te desculpa, mas as palavras são poucas e sobram-me coisas para te dizer, os sentimentos espalhados pelo meu coração anseiam saltitar para os teus sentidos e cantar-te belas canções, de amizade, de amor, de alegria.
Mas, o teu rosto magoado impede-me de sorrir, de fazer as loucuras de sempre…Porquê? Porque partiste deste nosso mundo e me deixaste sozinha pelas ruas do sentimento? Vem ter comigo, diz-me onde errei, guia-me pelo mundo, sê a minha bússola enquanto eu te guio pelo mapa da vida.
Deixa-me chegar até ti…ao coração distante, ao menino doce que descobri por detrás da faceta de vilão, à amizade que julguei eterna. Vamos…deixa-me entrar suavemente em ti, como na primeira vez, deixa-me entrelaçar os teus dedos nos meus e mostrar-te um pouco do mundo. Ou será que não me queres mais? A nossa amizade ter-se-á perdido no sentimento magoado que persiste?
Desculpa se errei, se julguei erradamente aqueles que mais amas, se estive longe quando deveria estar perto, se te repreendi quando deveria ter-te passado a mão pela cabeça…
Porém isso jamais poderia mudar algo…Será que não entendes que serás para sempre o miúdo mimado que eu detesto mas sem o qual não consigo viver? Será que não percebes que devo mostrar-te o caminho certo quando segues pela estrada errada? Fá-lo-ei sempre por amor, por carinho, por respeito.
Ou queres perder-te neste deserto de vida? Queres seguir as tabuletas erradas e vagueares como um louco pelo caminho que te resta percorrer?
A escolha é tua, porque independentemente de tudo eu estarei sempre a teu lado, para te amar, te proteger, te sorrir mesmo quando o teu rosto sisudo se recusa a devolver-me a alegria com que ouso enfrentar-te.
Perdoa-me pelas vezes que julgo tudo saber, pelos meus erros de menina, pelo egoísmo… Mas ao menos perdoa-me, fala, sorri, chora, inova…Não permaneças escravo da dor que se encerra no peito e se espelha nas faces…extravasa o sentir, o viver, o amar… Abre as tuas páginas soltas e agastadas do tempo, feridas pela vida…deixa-me ler esse bonito livro que és.
Peço-te apenas que não permitas que o ressentimento vença esta batalha, porque eu estarei na fileira da frente a lutar pelo amor, levarei nas faces a alegria dos bonitos dias que passámos e junto ao peito a nossa fotografia… a imagem de loucos que sorriram, que venceram, que amaram, que jamais permitirão que se perca aquilo que de melhor a vida lhes proporcionou.
Isa Mestre
Mas, o teu rosto magoado impede-me de sorrir, de fazer as loucuras de sempre…Porquê? Porque partiste deste nosso mundo e me deixaste sozinha pelas ruas do sentimento? Vem ter comigo, diz-me onde errei, guia-me pelo mundo, sê a minha bússola enquanto eu te guio pelo mapa da vida.
Deixa-me chegar até ti…ao coração distante, ao menino doce que descobri por detrás da faceta de vilão, à amizade que julguei eterna. Vamos…deixa-me entrar suavemente em ti, como na primeira vez, deixa-me entrelaçar os teus dedos nos meus e mostrar-te um pouco do mundo. Ou será que não me queres mais? A nossa amizade ter-se-á perdido no sentimento magoado que persiste?
Desculpa se errei, se julguei erradamente aqueles que mais amas, se estive longe quando deveria estar perto, se te repreendi quando deveria ter-te passado a mão pela cabeça…
Porém isso jamais poderia mudar algo…Será que não entendes que serás para sempre o miúdo mimado que eu detesto mas sem o qual não consigo viver? Será que não percebes que devo mostrar-te o caminho certo quando segues pela estrada errada? Fá-lo-ei sempre por amor, por carinho, por respeito.
Ou queres perder-te neste deserto de vida? Queres seguir as tabuletas erradas e vagueares como um louco pelo caminho que te resta percorrer?
A escolha é tua, porque independentemente de tudo eu estarei sempre a teu lado, para te amar, te proteger, te sorrir mesmo quando o teu rosto sisudo se recusa a devolver-me a alegria com que ouso enfrentar-te.
Perdoa-me pelas vezes que julgo tudo saber, pelos meus erros de menina, pelo egoísmo… Mas ao menos perdoa-me, fala, sorri, chora, inova…Não permaneças escravo da dor que se encerra no peito e se espelha nas faces…extravasa o sentir, o viver, o amar… Abre as tuas páginas soltas e agastadas do tempo, feridas pela vida…deixa-me ler esse bonito livro que és.
Peço-te apenas que não permitas que o ressentimento vença esta batalha, porque eu estarei na fileira da frente a lutar pelo amor, levarei nas faces a alegria dos bonitos dias que passámos e junto ao peito a nossa fotografia… a imagem de loucos que sorriram, que venceram, que amaram, que jamais permitirão que se perca aquilo que de melhor a vida lhes proporcionou.
Isa Mestre
Não esqueci
Não mentirei.
Porquê enganar-me? Sei que quando olhar adiante ninguém vai lá estar, serei apenas eu. Eu e o que restou de vós em mim. Eu e as minhas recordações tolas de quem um dia disse que não esqueceria, eu e as minhas loucuras que agora me transformaram numa louca perdida longe da dimensão desse nosso viver, eu e os sentimentos que me acompanham, eu e os rostos que ainda não se perderam na minha memória.
E recordarei as nossas conversas, os nossos medos e as nossas incertezas, voltarei a gritar como uma menina que chama por vós, a sentir medo como sentimos, a duvidar e a procurar resposta para as minhas dúvidas tal como procurámos. E voltarei a ver-vos diante dos meus olhinhos radiantes, como se eu fosse novamente a criança e pudesse abraçar-vos a todos. Mas, são minutos efémeros, perdidos, tristes e desamparados na minha memória fria arrastada por um sopro do coração. Apenas minutos repletos daquele amor e daquela inocência que julguei eternos. Porém, a eternidade perdeu-se quando a vida nos cortou os caminhos, nos guiou por diferentes rotas.
E eu deixei que ela vos levasse sem lhe fazer frente, deixei-a vencer, tal como um doente incapaz de enfrentar a própria doença. Resignei-me acreditando que seria possível esquecer a saudade, o amor, os laços que nos uniam. Na verdade, tudo não passou de uma ilusão. Menti. A mim mesma e a todos vós.
Porque, na verdade, não esqueci nada, nem a saudade, nem as alegrias que partilhámos, nem os momentos em que desejei ter-vos novamente a meu lado. Não esqueci que o amor se perde, que também cai em esquecimento. Não esqueci o momento em que partimos; devagar porque aqueles minutos pareceram anos, ridículos porque o amor torna-nos simplesmente ridículos.
Saímos a correr por entre a neblina da manhã que nos cobriu os rostos de um nevoeiro de saudade e nostalgia, partimos e dissemos: «Esperemos que nos voltemos a encontrar» e todos baixámos a cabeça por sabermos que esse momento não existiria. Despedimo-nos, os nossos passos levaram-nos pelos caminhos da vida e os nossos corações ficaram para sempre presos aquele momento, aquela mentira, ao engano cego a que a alma se propôs.
E hoje eu estou aqui…sozinha recordando-nos, revivendo-nos no meu imenso mar de solidão e vazio, no meu pássaro que perdeu as asas para voar, as asas do sonho, do nosso sonho… Talvez ainda estejam perdidas por aqui, nos cantos que percorremos, nas palavras que dissemos, nos papéis que escrevemos, talvez não seja tarde ainda para buscá-las e reaprender a voar, talvez não seja demasiado tarde para voltar a acreditar na nossa mentira, talvez possa ouvir novamente as nossas músicas e buscar a terra distante em que existimos, em que nos despedimos sem sequer imaginar que jamais voltaríamos a ver-nos.
Isa Mestre
Porquê enganar-me? Sei que quando olhar adiante ninguém vai lá estar, serei apenas eu. Eu e o que restou de vós em mim. Eu e as minhas recordações tolas de quem um dia disse que não esqueceria, eu e as minhas loucuras que agora me transformaram numa louca perdida longe da dimensão desse nosso viver, eu e os sentimentos que me acompanham, eu e os rostos que ainda não se perderam na minha memória.
E recordarei as nossas conversas, os nossos medos e as nossas incertezas, voltarei a gritar como uma menina que chama por vós, a sentir medo como sentimos, a duvidar e a procurar resposta para as minhas dúvidas tal como procurámos. E voltarei a ver-vos diante dos meus olhinhos radiantes, como se eu fosse novamente a criança e pudesse abraçar-vos a todos. Mas, são minutos efémeros, perdidos, tristes e desamparados na minha memória fria arrastada por um sopro do coração. Apenas minutos repletos daquele amor e daquela inocência que julguei eternos. Porém, a eternidade perdeu-se quando a vida nos cortou os caminhos, nos guiou por diferentes rotas.
E eu deixei que ela vos levasse sem lhe fazer frente, deixei-a vencer, tal como um doente incapaz de enfrentar a própria doença. Resignei-me acreditando que seria possível esquecer a saudade, o amor, os laços que nos uniam. Na verdade, tudo não passou de uma ilusão. Menti. A mim mesma e a todos vós.
Porque, na verdade, não esqueci nada, nem a saudade, nem as alegrias que partilhámos, nem os momentos em que desejei ter-vos novamente a meu lado. Não esqueci que o amor se perde, que também cai em esquecimento. Não esqueci o momento em que partimos; devagar porque aqueles minutos pareceram anos, ridículos porque o amor torna-nos simplesmente ridículos.
Saímos a correr por entre a neblina da manhã que nos cobriu os rostos de um nevoeiro de saudade e nostalgia, partimos e dissemos: «Esperemos que nos voltemos a encontrar» e todos baixámos a cabeça por sabermos que esse momento não existiria. Despedimo-nos, os nossos passos levaram-nos pelos caminhos da vida e os nossos corações ficaram para sempre presos aquele momento, aquela mentira, ao engano cego a que a alma se propôs.
E hoje eu estou aqui…sozinha recordando-nos, revivendo-nos no meu imenso mar de solidão e vazio, no meu pássaro que perdeu as asas para voar, as asas do sonho, do nosso sonho… Talvez ainda estejam perdidas por aqui, nos cantos que percorremos, nas palavras que dissemos, nos papéis que escrevemos, talvez não seja tarde ainda para buscá-las e reaprender a voar, talvez não seja demasiado tarde para voltar a acreditar na nossa mentira, talvez possa ouvir novamente as nossas músicas e buscar a terra distante em que existimos, em que nos despedimos sem sequer imaginar que jamais voltaríamos a ver-nos.
Isa Mestre
segunda-feira, abril 03, 2006
Espiga
Não quero que pares, que te sintas perdido, que o teu corpo repouse tristemente sem saber para que lugar ir.
Não quero que deixes de sonhar nunca, ouviste? Não quero.
Por isso não te retiro as asas do sonho quando eu sei que ainda podes voar tão alto, não te digo que não há infinito quando também os meus olhos o alcançam ávidos de atingi-lo, não te digo que a estrada acabará quando a minha vontade de persegui-la continua firme contrariando as nossas fraquezas.
Prometo. Não deixarei que a tua estrada se acabe, tal como uma folha de papel quando chega ao fim… Prometo-te que correrei ao armário mais próximo para buscar a próxima antes que a imaginação se perca nas ruas da minha incerteza, correrei para buscar outra estrada para ti, para o teu destino, para os caminhos do mundo que tantas vezes se cruzam com os nossos.
Encarregar-me-ei que o final da estrada te pareça sempre eternamente distante e que exista sempre na tua alma ânimo para prosseguir até ao fim.
Lutando para sorrir, lutando para enfrentar as tempestades da vida, lutando para te tornares mais forte, tal como o tronco de um castanheiro.
Lutando para que as tuas pernas tenham sempre forças para desbravar o caminho adiante e sublimar os obstáculos que se avizinham, lutando para que as tuas mãos possam agarrar o mundo e não mais deixá-lo escapar, lutando para que os teus olhos vejam coisas bonitas e o teu coração sinta o que é amar, lutando para afastar-te da miséria, da guerra, do ódio, da dor.
Primeiramente, aprenderás o quanto é belo o mundo, trabalharás arduamente com a tua inteligência, depois, o teu corpo ainda franzino enfrentará as coisas ás quais nos habituámos a chamar de “coisas más” e as tuas mãos abraçarão a espada do futuro, não a espada que mata, mas a espada que luta, que defende, que espalha talento pelo mundo. Mas, antes terás de aprender a usar a inteligência para que a tua espada não fira outros corpos magoados pela tua ambição desmedida.
Farás as tuas lutas, travarás as tuas batalhas, e eu estarei aqui para te ver, sempre… Como naquele dia no teatro, como quando pensavas que eu não estava lá e me escondia afinal atrás da cortina para que não ficasses nervoso.
Lembra-te sempre, por mais batalhas que traves, quer as venças ou saias derrotado, as mais importantes travam-se interiormente, entre nós e aquilo que somos.
Não magoes, meu amor, não faças uso daquilo que jamais quis que aprendesses a usar. Sê feliz longe de todas aquelas coisas que julgam tornar o homem feliz mas afinal o tornam cada vez mais pequeno e inútil.
Cresce…nunca te recuses a crescer, nunca o encares como uma crítica, nem nunca penses já ter crescido o suficiente porque crescerás até morrer.
Eu ainda cresço todos os dias, porque não crescerias tu minha pequena semente dourada que despontou do meu campo de trigo?
Cresce contigo, cresce com as asneiras, com as críticas, cresce com a vida porque se não for ela mesma ninguém mais poderá ensinar-te a tornares-te grande, dia após dia.
Vamos! Leva contigo os dias, as noites, os sorrisos, a meninice que te engrandece…leva contigo aquilo que sou, pois para onde quer que vá levar-te-ei no coração e ver-te-ei colher as plantas que um dia eu semeei quando te trazia no leito.
Não quero que deixes de sonhar nunca, ouviste? Não quero.
Por isso não te retiro as asas do sonho quando eu sei que ainda podes voar tão alto, não te digo que não há infinito quando também os meus olhos o alcançam ávidos de atingi-lo, não te digo que a estrada acabará quando a minha vontade de persegui-la continua firme contrariando as nossas fraquezas.
Prometo. Não deixarei que a tua estrada se acabe, tal como uma folha de papel quando chega ao fim… Prometo-te que correrei ao armário mais próximo para buscar a próxima antes que a imaginação se perca nas ruas da minha incerteza, correrei para buscar outra estrada para ti, para o teu destino, para os caminhos do mundo que tantas vezes se cruzam com os nossos.
Encarregar-me-ei que o final da estrada te pareça sempre eternamente distante e que exista sempre na tua alma ânimo para prosseguir até ao fim.
Lutando para sorrir, lutando para enfrentar as tempestades da vida, lutando para te tornares mais forte, tal como o tronco de um castanheiro.
Lutando para que as tuas pernas tenham sempre forças para desbravar o caminho adiante e sublimar os obstáculos que se avizinham, lutando para que as tuas mãos possam agarrar o mundo e não mais deixá-lo escapar, lutando para que os teus olhos vejam coisas bonitas e o teu coração sinta o que é amar, lutando para afastar-te da miséria, da guerra, do ódio, da dor.
Primeiramente, aprenderás o quanto é belo o mundo, trabalharás arduamente com a tua inteligência, depois, o teu corpo ainda franzino enfrentará as coisas ás quais nos habituámos a chamar de “coisas más” e as tuas mãos abraçarão a espada do futuro, não a espada que mata, mas a espada que luta, que defende, que espalha talento pelo mundo. Mas, antes terás de aprender a usar a inteligência para que a tua espada não fira outros corpos magoados pela tua ambição desmedida.
Farás as tuas lutas, travarás as tuas batalhas, e eu estarei aqui para te ver, sempre… Como naquele dia no teatro, como quando pensavas que eu não estava lá e me escondia afinal atrás da cortina para que não ficasses nervoso.
Lembra-te sempre, por mais batalhas que traves, quer as venças ou saias derrotado, as mais importantes travam-se interiormente, entre nós e aquilo que somos.
Não magoes, meu amor, não faças uso daquilo que jamais quis que aprendesses a usar. Sê feliz longe de todas aquelas coisas que julgam tornar o homem feliz mas afinal o tornam cada vez mais pequeno e inútil.
Cresce…nunca te recuses a crescer, nunca o encares como uma crítica, nem nunca penses já ter crescido o suficiente porque crescerás até morrer.
Eu ainda cresço todos os dias, porque não crescerias tu minha pequena semente dourada que despontou do meu campo de trigo?
Cresce contigo, cresce com as asneiras, com as críticas, cresce com a vida porque se não for ela mesma ninguém mais poderá ensinar-te a tornares-te grande, dia após dia.
Vamos! Leva contigo os dias, as noites, os sorrisos, a meninice que te engrandece…leva contigo aquilo que sou, pois para onde quer que vá levar-te-ei no coração e ver-te-ei colher as plantas que um dia eu semeei quando te trazia no leito.
terça-feira, março 21, 2006
Nas pisadas da noite
Nas pisadas da noite
Nas pisadas da noite encontraram o dia.
Eram robustos, lutadores, aguerridos, orgulhosos, ambiciosos, eram a ponta da lança pronta a atacar o inimigo, a estrela a despontar nos céus, o sorriso no rosto dos mais sisudos. Vestiam-se humildemente e no coração levavam o amor e o respeito que lhes fora incutido desde crianças. Muitos quiseram impedi-los de ir além, de atingir o caminho que os grandes percorreram, quiseram cortar-lhes as asas quando eles ainda tinham tanto espaço livre para voar. Mas eles continuaram a perseguir os seus sonhos, como fiéis heróis em busca de um ideal, como trepadores de montanhas que esboçam um tímido sorriso ao chegar ao cume. Como eles próprios, como vieram ao mundo, com a mesma pureza, inocência e bondade com que respiraram a primeira lufada de ar fresco.
Porém, o caminho revelou-se sinuoso, o mundo insistiu em mostrar-lhes a sua pequeneza perante a imensidão.
Inconformados choraram. Porque as suas roupas esfarrapadas jamais revelariam o conteúdo dos sentimentos que lhes enchiam o coração, choraram porque as lágrimas jamais seriam sinal de fraqueza, afinal fora com elas que aprenderam a crescer e a seguir novos rumos.
E nas pisadas da noite encontraram o dia.
Ainda que a luz fosse fraca souberam encontrá-la na dura escuridão, ainda que os sentimentos de pouco valessem eles souberam sentir, ousaram sentir.
As suas roupas continuaram pobres, tristes, sujas porém os seus corações limpos conseguiram ensinar ao mundo a lição do verdadeiro amor. Muitos lhes chamaram vagabundos ao passar pelas ruas, no entanto, outros tantos olharam-nos como heróis oferecendo-lhes o seu próprio sentir. E as janelas dos seus rostos abriram-se para o mundo, abraçaram-no sem pudor, sorriram, porque do sorriso nasce a alegria patente em cada gesto.
A lua iluminou as suas noites mais frias em busca de um mundo diferente… não um mundo melhor (tornara-se banal pedi-lo), porém um mundo diferente, um mundo com os mesmos homens de hoje mas capazes de construir um amanhã diferente. Talvez um mundo sem dor, sem ódio, sem raiva, sem luxo, sem injustiça, talvez…
E o sol acolheu os seus sorrisos perdidos no horizonte, os sorrisos de quem despertou mais um dia e ambicionou torná-lo maior que todos os outros, mais repleto de vida, de cor, de magia.
Por isso, hoje não seremos apenas nós, mas também estas duas estrelinhas perdidas na imensidão do Universo que cantam connosco o hino da nossa alegria de viver.
Na verdade, afinal também nós encontrámos nas suas pisadas da noite o rumo do nosso dia.
Isa Mestre
Nas pisadas da noite encontraram o dia.
Eram robustos, lutadores, aguerridos, orgulhosos, ambiciosos, eram a ponta da lança pronta a atacar o inimigo, a estrela a despontar nos céus, o sorriso no rosto dos mais sisudos. Vestiam-se humildemente e no coração levavam o amor e o respeito que lhes fora incutido desde crianças. Muitos quiseram impedi-los de ir além, de atingir o caminho que os grandes percorreram, quiseram cortar-lhes as asas quando eles ainda tinham tanto espaço livre para voar. Mas eles continuaram a perseguir os seus sonhos, como fiéis heróis em busca de um ideal, como trepadores de montanhas que esboçam um tímido sorriso ao chegar ao cume. Como eles próprios, como vieram ao mundo, com a mesma pureza, inocência e bondade com que respiraram a primeira lufada de ar fresco.
Porém, o caminho revelou-se sinuoso, o mundo insistiu em mostrar-lhes a sua pequeneza perante a imensidão.
Inconformados choraram. Porque as suas roupas esfarrapadas jamais revelariam o conteúdo dos sentimentos que lhes enchiam o coração, choraram porque as lágrimas jamais seriam sinal de fraqueza, afinal fora com elas que aprenderam a crescer e a seguir novos rumos.
E nas pisadas da noite encontraram o dia.
Ainda que a luz fosse fraca souberam encontrá-la na dura escuridão, ainda que os sentimentos de pouco valessem eles souberam sentir, ousaram sentir.
As suas roupas continuaram pobres, tristes, sujas porém os seus corações limpos conseguiram ensinar ao mundo a lição do verdadeiro amor. Muitos lhes chamaram vagabundos ao passar pelas ruas, no entanto, outros tantos olharam-nos como heróis oferecendo-lhes o seu próprio sentir. E as janelas dos seus rostos abriram-se para o mundo, abraçaram-no sem pudor, sorriram, porque do sorriso nasce a alegria patente em cada gesto.
A lua iluminou as suas noites mais frias em busca de um mundo diferente… não um mundo melhor (tornara-se banal pedi-lo), porém um mundo diferente, um mundo com os mesmos homens de hoje mas capazes de construir um amanhã diferente. Talvez um mundo sem dor, sem ódio, sem raiva, sem luxo, sem injustiça, talvez…
E o sol acolheu os seus sorrisos perdidos no horizonte, os sorrisos de quem despertou mais um dia e ambicionou torná-lo maior que todos os outros, mais repleto de vida, de cor, de magia.
Por isso, hoje não seremos apenas nós, mas também estas duas estrelinhas perdidas na imensidão do Universo que cantam connosco o hino da nossa alegria de viver.
Na verdade, afinal também nós encontrámos nas suas pisadas da noite o rumo do nosso dia.
Isa Mestre
quinta-feira, março 09, 2006
No aeroporto da minha alma
No aeroporto da minha alma aterram as alegrias e as tristezas, os sonhos e as desilusões, a loucura e a falta dela.
E as luzes do meu espírito continuam a brilhar, para que o próximo avião carregado de sonhos e repleto de coragem não perca a sua rota, não desvie o seu caminho nem por um segundo. Em terra, os sentimentos gesticulam, gritam, desesperam por vezes, mas, na aterragem tudo é serenidade, paz, alívio, apenas o barulho ensurdecedor dos motores, símbolo da força dos meus sonhos que continua a preencher as horas vazias deste coração. Os passageiros entram e saem, como vagabundos, como viajantes da última carruagem desse comboio da vida. Alguns perdem-se na complexidade das coisas, outros seguem perdidos e acabam por encontrar o seu destino final.
Por isso, as minhas bagagens estão feitas, estou pronta para partir.
Comigo levo as folhas de papel e a caneta, levo tudo aquilo que me basta para ser feliz!
Aceno lá do fundo àqueles que me conduzem até aos sonhos mas optam por ficar na porta de embarque esperando que a minha alma volte.
O aeroporto cheio de gente saúda aqueles que embarcam para o novo sonho, a nova aventura de viver, com as lágrimas nos olhos, tocam-lhes pela última vez e dizem… Até um dia…
Até ao dia em que o aeroporto da minha alma for pequeno demais para tanto sonho, até ao dia em que voltarei a brilhar, até ao dia em que voltarei a abraçar esses corpos cansados da expectativa, enquanto que o meu continua a procurá-la por todos os lugares.
Mas vocês continuam a acompanhar-me em todas as viagens da minha alma, ainda que vos faltem as forças e vos sobeje a experiência, conduzem-me até ao destino, como se de uma menina frágil me tratasse, como se com o derradeiro olhar me dissessem: «Vai correr tudo bem».
Depois, eu vou por aí, por esse mundo fora, descobrir aquilo que vocês já descobriram, cometer os erros que cometeram, sorrir tal como sorriram… Regressar tal como regressaram, com a alegria nos braços, transportando-a cuidadosamente como se de um bebé se tratasse.
E no regresso o meu rosto extenuado esboça o sorriso de sempre, então caminham até mim, beijam-me e abraçam-me, depois voltamos ao nosso mundo, à realidade que nos abraça a cada lufada de ar fresco…
O aeroporto da minha alma fica novamente vazio, desprovido de ânsia, de nervosismo, de cor, de luz, de magia…até ao próximo voo, até ao próximo sorriso nas asas do vento…
Isa Mestre
E as luzes do meu espírito continuam a brilhar, para que o próximo avião carregado de sonhos e repleto de coragem não perca a sua rota, não desvie o seu caminho nem por um segundo. Em terra, os sentimentos gesticulam, gritam, desesperam por vezes, mas, na aterragem tudo é serenidade, paz, alívio, apenas o barulho ensurdecedor dos motores, símbolo da força dos meus sonhos que continua a preencher as horas vazias deste coração. Os passageiros entram e saem, como vagabundos, como viajantes da última carruagem desse comboio da vida. Alguns perdem-se na complexidade das coisas, outros seguem perdidos e acabam por encontrar o seu destino final.
Por isso, as minhas bagagens estão feitas, estou pronta para partir.
Comigo levo as folhas de papel e a caneta, levo tudo aquilo que me basta para ser feliz!
Aceno lá do fundo àqueles que me conduzem até aos sonhos mas optam por ficar na porta de embarque esperando que a minha alma volte.
O aeroporto cheio de gente saúda aqueles que embarcam para o novo sonho, a nova aventura de viver, com as lágrimas nos olhos, tocam-lhes pela última vez e dizem… Até um dia…
Até ao dia em que o aeroporto da minha alma for pequeno demais para tanto sonho, até ao dia em que voltarei a brilhar, até ao dia em que voltarei a abraçar esses corpos cansados da expectativa, enquanto que o meu continua a procurá-la por todos os lugares.
Mas vocês continuam a acompanhar-me em todas as viagens da minha alma, ainda que vos faltem as forças e vos sobeje a experiência, conduzem-me até ao destino, como se de uma menina frágil me tratasse, como se com o derradeiro olhar me dissessem: «Vai correr tudo bem».
Depois, eu vou por aí, por esse mundo fora, descobrir aquilo que vocês já descobriram, cometer os erros que cometeram, sorrir tal como sorriram… Regressar tal como regressaram, com a alegria nos braços, transportando-a cuidadosamente como se de um bebé se tratasse.
E no regresso o meu rosto extenuado esboça o sorriso de sempre, então caminham até mim, beijam-me e abraçam-me, depois voltamos ao nosso mundo, à realidade que nos abraça a cada lufada de ar fresco…
O aeroporto da minha alma fica novamente vazio, desprovido de ânsia, de nervosismo, de cor, de luz, de magia…até ao próximo voo, até ao próximo sorriso nas asas do vento…
Isa Mestre
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Algo em alguém
Dentro de mim a noite parece escrever palavras confusas nas folhas soltas e velhas do meu coração. Mas essas, são palavras invisíveis, palavras que apenas tu entendes, que apenas tu lês. São sentimentos perdidos de quem já nem sabe o que é sentir.
Diz-me … será que ainda sinto? Ou abandonei por completo o meu corpo por não poder mais tocar o teu? Agora sou uma analfabeta incapaz de ler o teu pensamento, o teu corpo, o teu olhar, o teu sonho que morreu na minha face manchada pela derrota. E a noite volta a trazer-te para dentro de mim quando ainda nem sequer partiste… traz a tua face ingénua e pura, os teus olhinhos brilhantes fitando o Universo de magia e cor, os teus braços hábeis que agarram todas as coisas e as transformam nos mais bonitos momentos… Eu insisto que ainda é possível, mesmo que saiba que não, os teus olhos continuam a dizer-me que em ti existirá sempre um sim, o teu coração será eternamente o poço fechado onde me afogarei. E quando o mundo morrer eu ficarei viva para saber que ainda estás aqui: no meu peito, nas letrinhas que desenho na folha de papel, nos pedaços de madeira que ardem estridentemente na lareira da nossa juventude.
A minha saudade queima as tuas cartas, deseja tê-las longe, mas, ainda que as tuas palavras pareçam morrer no fogo, ainda que eu as mate, sei que elas jamais poderão extinguir-se dentro de mim.
Mesmo que as minhas roupas estejam perfumadas hei-de sempre sentir o odor do teu tabaco contagiando todas as partes do meu corpo, mesmo que não estejas, imaginar-te-ei sentado junto da lareira contando-me pequenas histórias da vida.
Permanecerás. Sobre o tempo, sobre as coisas mórbidas, sobre os olhares, sobre as crianças que brincam no jardim… Ainda bem que falamos nelas…
Sabes quem são?
São teus filhos…filhos do amor, da compreensão, da luta, da força, do orgulho, da convicção, da loucura, da magia que transportaste para dentro de mim.
Olha por eles…dá-lhes a mão já que serás incapaz de voltar a entrelaçar os teus dedos nos meus.
Vamos…vai vê-los sorrir… afinal, têm o teu sorriso, o abrir do mundo naqueles dentinhos de leite que se escondem por detrás da boca pequenina de lábios encarnados. Sorriem como tu, como sorriste nas noites de amor, nos dias perfeitos em que julgámos contornar a imperfeição. Mas, foi impossível, sabe-lo como eu… e eles que brincam no jardim são um símbolo disso mesmo, da nossa imperfeição. Da nossa incapacidade de amar, de sonhar, de sorrir mesmo quando nos apeteceu chorar.
Mas não me arrependo, porque eles são aquilo que sou, aquilo que somos, o que tu também és…são as palavras invisíveis dessa folha de papel que insisto em queimar todos os dias, são os laços inquebráveis que ainda nos unem, são os sentimentos que jamais morrerão…eles, amor, eles são o mundo…toca-lhes e voarás…ama-os e voltarás a sentir o que o amor.
Diz-me … será que ainda sinto? Ou abandonei por completo o meu corpo por não poder mais tocar o teu? Agora sou uma analfabeta incapaz de ler o teu pensamento, o teu corpo, o teu olhar, o teu sonho que morreu na minha face manchada pela derrota. E a noite volta a trazer-te para dentro de mim quando ainda nem sequer partiste… traz a tua face ingénua e pura, os teus olhinhos brilhantes fitando o Universo de magia e cor, os teus braços hábeis que agarram todas as coisas e as transformam nos mais bonitos momentos… Eu insisto que ainda é possível, mesmo que saiba que não, os teus olhos continuam a dizer-me que em ti existirá sempre um sim, o teu coração será eternamente o poço fechado onde me afogarei. E quando o mundo morrer eu ficarei viva para saber que ainda estás aqui: no meu peito, nas letrinhas que desenho na folha de papel, nos pedaços de madeira que ardem estridentemente na lareira da nossa juventude.
A minha saudade queima as tuas cartas, deseja tê-las longe, mas, ainda que as tuas palavras pareçam morrer no fogo, ainda que eu as mate, sei que elas jamais poderão extinguir-se dentro de mim.
Mesmo que as minhas roupas estejam perfumadas hei-de sempre sentir o odor do teu tabaco contagiando todas as partes do meu corpo, mesmo que não estejas, imaginar-te-ei sentado junto da lareira contando-me pequenas histórias da vida.
Permanecerás. Sobre o tempo, sobre as coisas mórbidas, sobre os olhares, sobre as crianças que brincam no jardim… Ainda bem que falamos nelas…
Sabes quem são?
São teus filhos…filhos do amor, da compreensão, da luta, da força, do orgulho, da convicção, da loucura, da magia que transportaste para dentro de mim.
Olha por eles…dá-lhes a mão já que serás incapaz de voltar a entrelaçar os teus dedos nos meus.
Vamos…vai vê-los sorrir… afinal, têm o teu sorriso, o abrir do mundo naqueles dentinhos de leite que se escondem por detrás da boca pequenina de lábios encarnados. Sorriem como tu, como sorriste nas noites de amor, nos dias perfeitos em que julgámos contornar a imperfeição. Mas, foi impossível, sabe-lo como eu… e eles que brincam no jardim são um símbolo disso mesmo, da nossa imperfeição. Da nossa incapacidade de amar, de sonhar, de sorrir mesmo quando nos apeteceu chorar.
Mas não me arrependo, porque eles são aquilo que sou, aquilo que somos, o que tu também és…são as palavras invisíveis dessa folha de papel que insisto em queimar todos os dias, são os laços inquebráveis que ainda nos unem, são os sentimentos que jamais morrerão…eles, amor, eles são o mundo…toca-lhes e voarás…ama-os e voltarás a sentir o que o amor.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Força
Que tens nessa alma?
Uma força imensa, uma capacidade de superar todos os obstáculos, de sorrir mesmo quando apetece chorar…
Enfrentaste sozinha as maiores tempestades e o teu barco continua firme sobre as imperiosas ondas da vida. No silêncio e na solidão do teu quarto encontras soluções, caminhos para delinear a tua vida, caminhos certos, caminhos de quem ousa sentir e não vive apenas por viver.
Porque essa força que impera no teu sorriso é o espelho do que vai nesse coração cintilante, nessas palavras que sem nada transmitir poderiam conter o mundo apenas na tua expressão apaixonada.
Tu és a flor… A que sofre devido à maldade dos humanos e continua a perfumar a mão que lhe retira vida, a que perdida na imensidão do espaço se destaca pelo seu brilho, pelas suas fortes raízes, pelo seu sorrir, pelo seu olhar…
Mas que força exubera desse nobre coração? Esse coração que sente, que vive, que sorri e que chora.
A vida ensinou-te a crescer, independente, feliz, sozinha na imensidão do mundo que parecia querer devorar-te…e tu cresceste, lutaste pela tua independência e venceste, ensinaste ao mundo que bastava força para vingar, para ser feliz. E quando a vida te impôs obstáculos, tu sorriste novamente, agarraste essa força que transportas no peito e seguiste adiante.
Caíste mas ergueste-te, tal como um anjo que perdeu as asas e anseia voltar a voar.
Sofreste. Mas nunca deixaste que o sofrimento manchasse os bonitos sentimentos da alma, esses mantiveste-os fiéis e intactos perante a ameaça da dor que nos mata os sentidos.
Quando todos esperaríamos a teimosa lágrima que teimava em descer-te das faces ofereceste-nos a força que nos faltou em momentos cruciais. Nós que tínhamos todos os motivos para sorrir, permanecemos quietos e calados, tristes e inconformados perante a tua dor, mas tu voltaste, repleta de forças e ensinaste-nos mais uma vez a sorrir, mesmo quando as forças te faltavam e a alegria não sobejava no humilde coração.
Mas a tua força levou-nos além…Mostrou-nos que tínhamos de ser capazes em todos os momentos, fossem eles de alegria ou dor.
E com os teus sorrisos foste-nos ensinando a crescer… Com a tua força guiaste-nos para a difícil guerra da vida e lutaste connosco lado a lado, como se de irmãos nos tratássemos….
Curaste as nossas feridas e com convicção prosseguimos a luta…. A sorrir, sempre a sorrir. Força no coração, humildade nas faces e um imenso caminho a preencher.
Depois… o caminho para casa, o doloroso destino que tivemos de percorrer sozinhos, porque tu, tu já lá não estavas, apenas a tua força nos guiou pelo mundo fora como bússola que orientou as coordenadas dos nossos frágeis corpos.
Isa Mestre
Uma força imensa, uma capacidade de superar todos os obstáculos, de sorrir mesmo quando apetece chorar…
Enfrentaste sozinha as maiores tempestades e o teu barco continua firme sobre as imperiosas ondas da vida. No silêncio e na solidão do teu quarto encontras soluções, caminhos para delinear a tua vida, caminhos certos, caminhos de quem ousa sentir e não vive apenas por viver.
Porque essa força que impera no teu sorriso é o espelho do que vai nesse coração cintilante, nessas palavras que sem nada transmitir poderiam conter o mundo apenas na tua expressão apaixonada.
Tu és a flor… A que sofre devido à maldade dos humanos e continua a perfumar a mão que lhe retira vida, a que perdida na imensidão do espaço se destaca pelo seu brilho, pelas suas fortes raízes, pelo seu sorrir, pelo seu olhar…
Mas que força exubera desse nobre coração? Esse coração que sente, que vive, que sorri e que chora.
A vida ensinou-te a crescer, independente, feliz, sozinha na imensidão do mundo que parecia querer devorar-te…e tu cresceste, lutaste pela tua independência e venceste, ensinaste ao mundo que bastava força para vingar, para ser feliz. E quando a vida te impôs obstáculos, tu sorriste novamente, agarraste essa força que transportas no peito e seguiste adiante.
Caíste mas ergueste-te, tal como um anjo que perdeu as asas e anseia voltar a voar.
Sofreste. Mas nunca deixaste que o sofrimento manchasse os bonitos sentimentos da alma, esses mantiveste-os fiéis e intactos perante a ameaça da dor que nos mata os sentidos.
Quando todos esperaríamos a teimosa lágrima que teimava em descer-te das faces ofereceste-nos a força que nos faltou em momentos cruciais. Nós que tínhamos todos os motivos para sorrir, permanecemos quietos e calados, tristes e inconformados perante a tua dor, mas tu voltaste, repleta de forças e ensinaste-nos mais uma vez a sorrir, mesmo quando as forças te faltavam e a alegria não sobejava no humilde coração.
Mas a tua força levou-nos além…Mostrou-nos que tínhamos de ser capazes em todos os momentos, fossem eles de alegria ou dor.
E com os teus sorrisos foste-nos ensinando a crescer… Com a tua força guiaste-nos para a difícil guerra da vida e lutaste connosco lado a lado, como se de irmãos nos tratássemos….
Curaste as nossas feridas e com convicção prosseguimos a luta…. A sorrir, sempre a sorrir. Força no coração, humildade nas faces e um imenso caminho a preencher.
Depois… o caminho para casa, o doloroso destino que tivemos de percorrer sozinhos, porque tu, tu já lá não estavas, apenas a tua força nos guiou pelo mundo fora como bússola que orientou as coordenadas dos nossos frágeis corpos.
Isa Mestre
domingo, fevereiro 05, 2006
Antes de Partir
Beijo-te antes de partires.
Não sei se voltarei a ver-te, se os meus olhos se cruzarão com os teus no atribulado cais da vida, se a minha alma se juntará à tua para mais uma divagação, se o meu coração se partirá antes que venhas consertá-lo. Não sei.
Mas, não choro, não sofro, apenas vivo nessa recordação que parece guiar os meus passos pela noite escura.
Talvez seja a última…Talvez…Ou quem sabe não será?
Lá vens tu com a tua voz penetrante, acusando-me de tristeza, de semear no teu coração a ansiedade da perda, da morte, do fim de todas as coisas… Trazes nas mãos a alegria de viver, nos olhos o brilho da vida, pois tu sabes o que isso é, eu talvez não o saiba, por isso falo tantas vezes de morte.
Porque tenho medo de perder-te, que os meus olhos não contemplem mais essa figura que me habituei a amar, tenho receio que vás para longe e te esqueças da menina que ensinaste a crescer.
Trazes os livros amontoados nas mãos calejadas pela caneta, um lápis na mão direita disposto a assinalar os meus erros na senda da vida, um sorriso nos lábios, uma alegria no coração que apenas com palavras jamais conseguirei expressar.
Convido-te a ficares comigo mais alguns instantes, mas insistes em partir, outros precisam de ti. Tenho de aprender a deixar de lado o egoísmo, tenho de aprender que a tua grandeza não morre na minha alma pequenina, tenho de aprender que vives atarefado e eu sou apenas mais uma pequena tarefa do teu dia. Sou apenas o momento em que me olhas, me elogias, me criticas, me beijas, me tocas nas faces, me sorris, e depois...o resto da vida é composto de nadas.
Mas, quero sempre beijar-te, como se fosse a última vez, quero dizer-te que te adoro, que és a pessoa mais importante da minha vida, agradecer-te por tudo, mas tu…permaneces calado, tapas-me a boca e impedes-me de fazer-te sorrir.
Mas eu quero dize-lo! Deixa-me falar! Amanhã pode ser tarde demais! «Guarda as palavras no coração, ele saberá como transmiti-las sob a forma de sentimentos».
Sim, eu sei. E tu também sabes porque sentes o quanto te amo, o quanto te admiro. Apenas um olhar diria tudo, pois o amor é criminoso e transporta nas faces o maior símbolo da sua presença.
Eu sorrio-te, sabes como adoro sorrir, tu…devolves-me o sorriso, aquelas nossas expressões são amo-tes largados pela rua, são folhas caídas da grande árvore dos afectos.
Não precisamos dizer mais nada, sabes como somos, falamos apenas com os olhares e quando parto sei tudo sobre ti e tu tudo sobre mim, apesar do silêncio sinto-me como se tivéssemos falado horas e horas.
Tu vais sem pudor, sabes que amanhã me encontrarás no mesmo sítio, porém eu anseio que o amanhã não chegue, que a vida me corte as asas que me permitem voar…
Mas, sossego a minha inquietação…como se os teus olhos azuis fossem o mar calmo perante uma noite de luar, e eu a estrela perdida que sonha contigo.
Afinal no dia seguinte a tua figura serena surge novamente ao final da rua…tinhas razão velhote…mas quem me diz que hoje não será o último? Quem me diz que as minhas raízes querem ficar para sempre presas a este solo? Quem me diz que amanhã na tua eterna convicção de me encontrares não mais me encontrarás? Quem me diz que os momentos são infinitos quando o próprio mundo um dia se esgotará? Por isso, beijo-te antes de partires, deposito os meus lábios nas faces rosadas do frio, na barba fustigada pela chuva que cai sobre as nossas cabeças…é o último, eu sei disso, mas não me impede que aja como se fosse o primeiro…
Isa Mestre
Não sei se voltarei a ver-te, se os meus olhos se cruzarão com os teus no atribulado cais da vida, se a minha alma se juntará à tua para mais uma divagação, se o meu coração se partirá antes que venhas consertá-lo. Não sei.
Mas, não choro, não sofro, apenas vivo nessa recordação que parece guiar os meus passos pela noite escura.
Talvez seja a última…Talvez…Ou quem sabe não será?
Lá vens tu com a tua voz penetrante, acusando-me de tristeza, de semear no teu coração a ansiedade da perda, da morte, do fim de todas as coisas… Trazes nas mãos a alegria de viver, nos olhos o brilho da vida, pois tu sabes o que isso é, eu talvez não o saiba, por isso falo tantas vezes de morte.
Porque tenho medo de perder-te, que os meus olhos não contemplem mais essa figura que me habituei a amar, tenho receio que vás para longe e te esqueças da menina que ensinaste a crescer.
Trazes os livros amontoados nas mãos calejadas pela caneta, um lápis na mão direita disposto a assinalar os meus erros na senda da vida, um sorriso nos lábios, uma alegria no coração que apenas com palavras jamais conseguirei expressar.
Convido-te a ficares comigo mais alguns instantes, mas insistes em partir, outros precisam de ti. Tenho de aprender a deixar de lado o egoísmo, tenho de aprender que a tua grandeza não morre na minha alma pequenina, tenho de aprender que vives atarefado e eu sou apenas mais uma pequena tarefa do teu dia. Sou apenas o momento em que me olhas, me elogias, me criticas, me beijas, me tocas nas faces, me sorris, e depois...o resto da vida é composto de nadas.
Mas, quero sempre beijar-te, como se fosse a última vez, quero dizer-te que te adoro, que és a pessoa mais importante da minha vida, agradecer-te por tudo, mas tu…permaneces calado, tapas-me a boca e impedes-me de fazer-te sorrir.
Mas eu quero dize-lo! Deixa-me falar! Amanhã pode ser tarde demais! «Guarda as palavras no coração, ele saberá como transmiti-las sob a forma de sentimentos».
Sim, eu sei. E tu também sabes porque sentes o quanto te amo, o quanto te admiro. Apenas um olhar diria tudo, pois o amor é criminoso e transporta nas faces o maior símbolo da sua presença.
Eu sorrio-te, sabes como adoro sorrir, tu…devolves-me o sorriso, aquelas nossas expressões são amo-tes largados pela rua, são folhas caídas da grande árvore dos afectos.
Não precisamos dizer mais nada, sabes como somos, falamos apenas com os olhares e quando parto sei tudo sobre ti e tu tudo sobre mim, apesar do silêncio sinto-me como se tivéssemos falado horas e horas.
Tu vais sem pudor, sabes que amanhã me encontrarás no mesmo sítio, porém eu anseio que o amanhã não chegue, que a vida me corte as asas que me permitem voar…
Mas, sossego a minha inquietação…como se os teus olhos azuis fossem o mar calmo perante uma noite de luar, e eu a estrela perdida que sonha contigo.
Afinal no dia seguinte a tua figura serena surge novamente ao final da rua…tinhas razão velhote…mas quem me diz que hoje não será o último? Quem me diz que as minhas raízes querem ficar para sempre presas a este solo? Quem me diz que amanhã na tua eterna convicção de me encontrares não mais me encontrarás? Quem me diz que os momentos são infinitos quando o próprio mundo um dia se esgotará? Por isso, beijo-te antes de partires, deposito os meus lábios nas faces rosadas do frio, na barba fustigada pela chuva que cai sobre as nossas cabeças…é o último, eu sei disso, mas não me impede que aja como se fosse o primeiro…
Isa Mestre
domingo, janeiro 29, 2006
Bruno
Se a saudade tivesse um nome chamar-se-ia Bruno.
Bruno, a palavra de cinco letrinhas que me fez voar sobre as suas asas, o sentido da vida reunido naquele momento, naquele nome, naquela expressão, naquele olhar…
A noite chora, chama por ti, os barcos trazem inscrições na sua proa, os pássaros levam a minha saudade nas suas frágeis asas, o vento leva-a no peito, enquanto a minha voz sumida chama por ti…Bruno, Bruno, Bruno…
Será que te perdeste por aí? Será que posso ir buscar-te com as minhas mãozinhas delicadas, ou ter-te-ei deixado fugir para sempre? Será que há amanhã? Será que o momento se resume à efemeridade? Será Bruno?
Porque não voltas mais? A este cais atribulado das nossas vidas, a esta rotina estonteante que apenas tu sabias quebrar da melhor forma…
Aquilo que foste desvanece-se aos poucos na nossa memória, os teus contornos perdem precisão e os sentimentos ganham força neste coração que anseia abraçar-te.
Mas tu, tu já lá não estás.
Oxalá pudesse chamar por ti, como fiz tantas vezes quando brincávamos como criancinhas pequenas…mas agora a minha voz trémula perde-se no infinito sem atingir o teu coração, agora as estrelas ficam quietas, são testemunhas caladas da minha dor.
Agora a areia da praia insiste em apagar o teu nome, apenas poderemos escrevê-lo juntos, sei disso.
Queimo folhas, rasgo palavras, oxalá pudesse eu matar a dor que me atravessa a alma.
Não espero mais, Bruno. A cada barco que passa a minha esperança de ver-te voltar morre nas profundas águas do oceano, restam-me as palavras, as que me deixaste, as que ficaram de herança deste amor tão bonito que nem o tempo conseguiu apagar.
E essas não as sepulto junto do teu túmulo que não existe, guardo-as comigo para sempre, na caixinha do meu coração, no sorriso da minha alma.
Porque por mais que eu abra o mapa, o teu nome está em todas as partes, as coordenadas do meu peito serão eternamente tuas, ainda que não exista esse dia, esse momento, esse amar, os meus caminhos serão sempre os nossos caminhos.
Os meus pezinhos percorrem a casa, as minhas roupas espalham-se pelo chão, os meus livros abrem-se perante o atento olhar da vida, mas faltas tu…o teu cheiro, o caminhar decidido, a excentricidade da tua música, a loucura do teu ser. Falta o livro fora do sítio, a camisa desarrumada, o tapete sujo dos teus passos enlameados pela casa, falta a rosa nessa jarra vazia que a minha saudade foi incapaz de preencher. Falta o teu perfume espalhado pela rua, o teu sorriso reflectido nas montras da cidade, o teu flash que captava todas as emoções…
Todas as coisas chamam por ti…mas o meu coração, esse cansou-se de esperar e gravou o teu nome para sempre junto das mais bonitas coisas da vida.
Bruno, a palavra de cinco letrinhas que me fez voar sobre as suas asas, o sentido da vida reunido naquele momento, naquele nome, naquela expressão, naquele olhar…
A noite chora, chama por ti, os barcos trazem inscrições na sua proa, os pássaros levam a minha saudade nas suas frágeis asas, o vento leva-a no peito, enquanto a minha voz sumida chama por ti…Bruno, Bruno, Bruno…
Será que te perdeste por aí? Será que posso ir buscar-te com as minhas mãozinhas delicadas, ou ter-te-ei deixado fugir para sempre? Será que há amanhã? Será que o momento se resume à efemeridade? Será Bruno?
Porque não voltas mais? A este cais atribulado das nossas vidas, a esta rotina estonteante que apenas tu sabias quebrar da melhor forma…
Aquilo que foste desvanece-se aos poucos na nossa memória, os teus contornos perdem precisão e os sentimentos ganham força neste coração que anseia abraçar-te.
Mas tu, tu já lá não estás.
Oxalá pudesse chamar por ti, como fiz tantas vezes quando brincávamos como criancinhas pequenas…mas agora a minha voz trémula perde-se no infinito sem atingir o teu coração, agora as estrelas ficam quietas, são testemunhas caladas da minha dor.
Agora a areia da praia insiste em apagar o teu nome, apenas poderemos escrevê-lo juntos, sei disso.
Queimo folhas, rasgo palavras, oxalá pudesse eu matar a dor que me atravessa a alma.
Não espero mais, Bruno. A cada barco que passa a minha esperança de ver-te voltar morre nas profundas águas do oceano, restam-me as palavras, as que me deixaste, as que ficaram de herança deste amor tão bonito que nem o tempo conseguiu apagar.
E essas não as sepulto junto do teu túmulo que não existe, guardo-as comigo para sempre, na caixinha do meu coração, no sorriso da minha alma.
Porque por mais que eu abra o mapa, o teu nome está em todas as partes, as coordenadas do meu peito serão eternamente tuas, ainda que não exista esse dia, esse momento, esse amar, os meus caminhos serão sempre os nossos caminhos.
Os meus pezinhos percorrem a casa, as minhas roupas espalham-se pelo chão, os meus livros abrem-se perante o atento olhar da vida, mas faltas tu…o teu cheiro, o caminhar decidido, a excentricidade da tua música, a loucura do teu ser. Falta o livro fora do sítio, a camisa desarrumada, o tapete sujo dos teus passos enlameados pela casa, falta a rosa nessa jarra vazia que a minha saudade foi incapaz de preencher. Falta o teu perfume espalhado pela rua, o teu sorriso reflectido nas montras da cidade, o teu flash que captava todas as emoções…
Todas as coisas chamam por ti…mas o meu coração, esse cansou-se de esperar e gravou o teu nome para sempre junto das mais bonitas coisas da vida.
quinta-feira, janeiro 26, 2006
Canção
Invade-me uma sensação de liberdade e de alegria, quer expandir-se por todos os poros da minha alma… então sorrio, canto canções.
Subitamente vem-me à imaginação as melodias de meninos, recordo as músicas da nossa adolescência conturbada, depois…depois as notas dessa nossa canção saltam-me para o coração e os meus lábios desenham pela casa a música que tantas vezes ouvimos. Eu canto-a, como na primeira vez, com a mesma emoção, como se as minhas cordas vocais ainda permanecessem idênticas, como se a maturidade não se tivesse apoderado do meu corpo.
È a canção da morte…da tua morte. Porque enquanto a canto e recordo os momentos vividos, tu agonizas do outro lado do planeta, tentas despedir-te do mundo, das pessoas, das palavras… na tua cabeça ecoa essa mesma canção, aquela que eu canto com um sorriso nos lábios e alegria na alma.
Não sei de nada, não sei que naquele preciso momento estás a dizer-me adeus, não sei que as horas jamais poderão prolongar a tua estada neste mundo, não sei se devo cantá-la, ou se devo ceder ao silêncio desta casa.
A alegria esvai-se em instantes, volta o vazio, perde-se a alegria, regressa a madrasta tristeza ao meu rosto pueril.
De repente, tento cantar, mas os sons ficam presos nesta garganta ferida de tanto chamar o teu nome, as palavras não saem, as notas perdem-se na minha cabeça sem conseguir atingir o coração.
És tu quem me tira esta canção da alma, és tu que respiras a última lufada de ar da vida, e eu perdida e triste nem me apercebo que apesar da distância estás a morrer nos meus braços.
Então calo-me. Deixo-te ir sem fazer frente à morte, sem lutar com a minha espada de ouro, sem dizer que te amo antes que seja tarde demais…Deixo-te partir, para sempre…
Vejo a tua vida escapar-me por entre os dedos e não consigo detê-la, quero agarrar essa canção, esse som, essa alegria que cultivámos durante anos, mas tu, afastas-me as mãos, guardas a letra da nossa canção junto do teu peito, sorris-me e vais-te.
Vou inocentemente à tua procura, julgo ainda poder segurar-te a mão e prender-te à vida, mas os meus dedos pequeninos revelam-se incapazes de salvar-te da dor e da morte.
Então a alegria foge-me do rosto, a canção junta-se a ti e abandona o meu corpo, a minha alma, a minha vida. Sei que jamais poderei cantá-la sozinha, porque agora tu já não estará do outro lado do Planeta para completar os versos em branco que a minha distracção deixou escapar, porque esses sons parecerão cemitérios daquilo que fomos e que vivemos…
Por isso, se queres que cante, vem! Empresta-me esse coração que ainda é meu, dá-me essa alma que me pertence, junta a tua voz à minha e cantarolemos como loucos a nossa canção, a canção da vida, a canção que te levou nos braços da morte…
Isa Mestre
Subitamente vem-me à imaginação as melodias de meninos, recordo as músicas da nossa adolescência conturbada, depois…depois as notas dessa nossa canção saltam-me para o coração e os meus lábios desenham pela casa a música que tantas vezes ouvimos. Eu canto-a, como na primeira vez, com a mesma emoção, como se as minhas cordas vocais ainda permanecessem idênticas, como se a maturidade não se tivesse apoderado do meu corpo.
È a canção da morte…da tua morte. Porque enquanto a canto e recordo os momentos vividos, tu agonizas do outro lado do planeta, tentas despedir-te do mundo, das pessoas, das palavras… na tua cabeça ecoa essa mesma canção, aquela que eu canto com um sorriso nos lábios e alegria na alma.
Não sei de nada, não sei que naquele preciso momento estás a dizer-me adeus, não sei que as horas jamais poderão prolongar a tua estada neste mundo, não sei se devo cantá-la, ou se devo ceder ao silêncio desta casa.
A alegria esvai-se em instantes, volta o vazio, perde-se a alegria, regressa a madrasta tristeza ao meu rosto pueril.
De repente, tento cantar, mas os sons ficam presos nesta garganta ferida de tanto chamar o teu nome, as palavras não saem, as notas perdem-se na minha cabeça sem conseguir atingir o coração.
És tu quem me tira esta canção da alma, és tu que respiras a última lufada de ar da vida, e eu perdida e triste nem me apercebo que apesar da distância estás a morrer nos meus braços.
Então calo-me. Deixo-te ir sem fazer frente à morte, sem lutar com a minha espada de ouro, sem dizer que te amo antes que seja tarde demais…Deixo-te partir, para sempre…
Vejo a tua vida escapar-me por entre os dedos e não consigo detê-la, quero agarrar essa canção, esse som, essa alegria que cultivámos durante anos, mas tu, afastas-me as mãos, guardas a letra da nossa canção junto do teu peito, sorris-me e vais-te.
Vou inocentemente à tua procura, julgo ainda poder segurar-te a mão e prender-te à vida, mas os meus dedos pequeninos revelam-se incapazes de salvar-te da dor e da morte.
Então a alegria foge-me do rosto, a canção junta-se a ti e abandona o meu corpo, a minha alma, a minha vida. Sei que jamais poderei cantá-la sozinha, porque agora tu já não estará do outro lado do Planeta para completar os versos em branco que a minha distracção deixou escapar, porque esses sons parecerão cemitérios daquilo que fomos e que vivemos…
Por isso, se queres que cante, vem! Empresta-me esse coração que ainda é meu, dá-me essa alma que me pertence, junta a tua voz à minha e cantarolemos como loucos a nossa canção, a canção da vida, a canção que te levou nos braços da morte…
Isa Mestre
quarta-feira, janeiro 18, 2006
Obrigada!
Há momentos em que o horizonte pára e eu penso... Penso em mim, penso em vós, penso em todos aqueles que de alguma forma ou de outra me ajudam diariamente a poder fazer aquilo que amo. Para vós um obrigada não basta, nunca existirão palavras capazes de expressar o que sinto. Mas, há nomes que nunca se esquecem, há pessoas que ficarão para sempre em nós, naquilo que fazemos e naquilo que somos pela vida fora.
Agradecimentos
Entre todas as pessoas que diariamente me ajudam quero muito especialmente agradecer à Professora Fernanda Lima, grande amiga que desde sempre me apoiou e me iluminou o caminho, tal como uma candeia na noite. Ensinou-me muito daquilo que sei hoje, a si lhe devo a força que me deu em todos os momentos e as alegrias que partilhámos juntas. Obrigada pela paciência , pelos erros que corrigimos, pelas vezes que reescrevemos... Obrigada por tudo. Sempre no meu coração...
Ainda um agradecimento especial à minha Professora de Literatura, Eduarda, pela compreensão e ajuda e por nos ensinar não apenas a Literatura mas também um pouco da vida.
Muito Obrigada!
Agradecimentos
Entre todas as pessoas que diariamente me ajudam quero muito especialmente agradecer à Professora Fernanda Lima, grande amiga que desde sempre me apoiou e me iluminou o caminho, tal como uma candeia na noite. Ensinou-me muito daquilo que sei hoje, a si lhe devo a força que me deu em todos os momentos e as alegrias que partilhámos juntas. Obrigada pela paciência , pelos erros que corrigimos, pelas vezes que reescrevemos... Obrigada por tudo. Sempre no meu coração...
Ainda um agradecimento especial à minha Professora de Literatura, Eduarda, pela compreensão e ajuda e por nos ensinar não apenas a Literatura mas também um pouco da vida.
Muito Obrigada!
Na alegria do teu sorriso
Na alegria do teu sorriso
Longe mas perto. Não quero mais ouvir essa voz magoada, esses sons frágeis que me enganam, que me traem, que se perdem nos palácios da minha recordação infinita. Não és tu. Não a pessoa que eu conheci. A mulher forte e lutadora, a que me ensinou a ver em cada obstáculo um pretexto para ganhar forças e sorrir pela vida fora, não a que me ensinou a vencer e me demonstrou vivamente como faze-lo.
A vida jamais poderá derrubar aquilo que és e o que transportas para o mundo, por isso, esconde as tuas lágrimas, mata-as na rua criminosa da dor, altera o tom de voz, ganha coragem, força, alento.
Vou ter contigo, prometo-te. Para te abraçar e te dizer que te adoro, para te beijar as faces e dar-te forças para prosseguir, ou quem sabe para ficarmos apenas no silencio dos sentimentos que nos unem? Mas eu vou. Vou procurar o rosto risonho que me fez crescer, a expressão bonita que me acolheu tantas vezes as tempestades da minha vida.
Não chores mais, querida, não suporto saber que sofres, mereces o mundo e não o que ele tem de pior. Vamos, segue comigo essa estrela, coloca o teu braço sobre o meu ombro e vamos sonhar um pouco, como nos velhos tempos, como quando íamos à boleia das palavras e parávamos ao abrigo de um pensamento qualquer. Vamos lá, ainda és capaz de me ensinar isto e muito mais, mostra-me como se sorri verdadeiramente, com alma, com coração.
Pega na folha de papel e risca as minhas palavras, obriga-me a pensar, a pôr em causa o que faço, a rescrever, a sorrir para ti, a admirar-te como sempre o fiz. Eu acenarei com a cabeça. Dir-te-ei alguns disparates, afinal a minha juventude não me permite muito mais…Tu voltarás a devolver-me o sorriso nobre, pousas a tua caneta sobre o papel e escreves palavras, palavras que nos ouvem, palavras que nos lêem, palavras que nos libertam, palavras que sentem, palavras que se perdem nas avenidas da nossa vida e se encontram mais além.
Precisas de mim e eu preciso de ti. Hoje e sempre. Será eternamente igual, nada mudará, e eu agradeço ao mundo por isso.
Estou aqui, amiga. Para os bons e para os maus momentos, para a festa e para a tragédia, para sorrir e para chorar, para abraçar e para ficar quieta no meu canto, para falar e ficar calada.
Por isso, caminho até ti, sei que a tua força move o mundo, o teu coração seria capaz de acolher o sofrimento que vive no mundo, sei que sorris, sei que voltarás a sorrir, a tua força nunca mais se acabará, o teu espírito será sempre o teu espírito, o que admiro, o que amo, o que respeito.
E no sorriso dos teus lábios o mundo espelha a alegria que é viver.
Longe mas perto. Não quero mais ouvir essa voz magoada, esses sons frágeis que me enganam, que me traem, que se perdem nos palácios da minha recordação infinita. Não és tu. Não a pessoa que eu conheci. A mulher forte e lutadora, a que me ensinou a ver em cada obstáculo um pretexto para ganhar forças e sorrir pela vida fora, não a que me ensinou a vencer e me demonstrou vivamente como faze-lo.
A vida jamais poderá derrubar aquilo que és e o que transportas para o mundo, por isso, esconde as tuas lágrimas, mata-as na rua criminosa da dor, altera o tom de voz, ganha coragem, força, alento.
Vou ter contigo, prometo-te. Para te abraçar e te dizer que te adoro, para te beijar as faces e dar-te forças para prosseguir, ou quem sabe para ficarmos apenas no silencio dos sentimentos que nos unem? Mas eu vou. Vou procurar o rosto risonho que me fez crescer, a expressão bonita que me acolheu tantas vezes as tempestades da minha vida.
Não chores mais, querida, não suporto saber que sofres, mereces o mundo e não o que ele tem de pior. Vamos, segue comigo essa estrela, coloca o teu braço sobre o meu ombro e vamos sonhar um pouco, como nos velhos tempos, como quando íamos à boleia das palavras e parávamos ao abrigo de um pensamento qualquer. Vamos lá, ainda és capaz de me ensinar isto e muito mais, mostra-me como se sorri verdadeiramente, com alma, com coração.
Pega na folha de papel e risca as minhas palavras, obriga-me a pensar, a pôr em causa o que faço, a rescrever, a sorrir para ti, a admirar-te como sempre o fiz. Eu acenarei com a cabeça. Dir-te-ei alguns disparates, afinal a minha juventude não me permite muito mais…Tu voltarás a devolver-me o sorriso nobre, pousas a tua caneta sobre o papel e escreves palavras, palavras que nos ouvem, palavras que nos lêem, palavras que nos libertam, palavras que sentem, palavras que se perdem nas avenidas da nossa vida e se encontram mais além.
Precisas de mim e eu preciso de ti. Hoje e sempre. Será eternamente igual, nada mudará, e eu agradeço ao mundo por isso.
Estou aqui, amiga. Para os bons e para os maus momentos, para a festa e para a tragédia, para sorrir e para chorar, para abraçar e para ficar quieta no meu canto, para falar e ficar calada.
Por isso, caminho até ti, sei que a tua força move o mundo, o teu coração seria capaz de acolher o sofrimento que vive no mundo, sei que sorris, sei que voltarás a sorrir, a tua força nunca mais se acabará, o teu espírito será sempre o teu espírito, o que admiro, o que amo, o que respeito.
E no sorriso dos teus lábios o mundo espelha a alegria que é viver.
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